HOME TLAXCALA
a rede de tradutores pela diversidade lingüística
MANIFESTO DE TLAXCALA  QUEM SOMOS ?  OS AMIGOS DE TLAXCALA   PESQUISAR 

AO SUL DA FRONTEIRA (América Latina e Caribe)
IMPÉRIO (Questões globais)
TERRA DE CANAà(Palestina, Israel, Líbano)
UMMA (Mundo árabe, Islã)
NO VENTRE DA BALEIA (Ativismo nas metrópoles imperialistas)
PAZ E GUERRA (USA, UE, OTAN)
MÃE AFRICA (Continente africano, Oceano índico)

ZONA DOS TUFÕES  (Ásia, Pacífico)
KOM K DE KALVELLIDO (Diário de um cartunista proletário)
TEMPESTADE CEREBRAL  (Cultura, Comunicação)
OS INCLASSIFICADOS 
CRÔNICAS TLAXCALTECAS 
O FICHÁRIO DE TLAXCALA  (Glossários, dicionários, fichários)
BIBLIOTECA DE AUTORES 
GALERIA 
OS ARQUIVOS DE TLAXCALA  

22/10/2017
Español Français English Deutsch Português Italiano Català
عربي Svenska فارسی Ελληνικά русски TAMAZIGHT OTHER LANGUAGES
 

A minha última conversa com Aung San Suu Kyi


AUTOR:  John PILGER

Traduzido por  Cristina Santos


Durante as últimas manifestações do povo da Birmânia, tivemos uma rara aparição de Aung San Suu Kyi. Ali estava ela, no portão traseiro da sua casa à beira do lago em Rangum, onde está em prisão domiciliária. Parecia muito magra. Durante anos, as pessoas enfrentavam os bloqueios da rua apenas para passar pela sua casa e sentirem-se tranquilizados pelo som dela a tocar piano. Ela disse-me que ficava deitada na cama a ouvir vozes no exterior e o palpitar do seu coração. “Desde que fiquei doente tenho dificuldades para respirar se me deito de costas” – disse-me ela.

Isto foi há uma década. Entrar às escondidas na sua casa, como fiz naquela altura, requeria todo o engenho da resistência birmanesa. Eu e o meu companheiro e realizador, David Munro, fomos recebidos pelo seu assistente, Win Htein, que tinha estado seis anos na prisão, cinco dos quais em solitária. No entanto, ele sorriu e apertou-nos a mão calorosamente. Levou-nos para dentro de casa, um edifício imponente agora em avançado estado de degradação. O jardim com as suas palmeiras irregulares vai dar ao Lago Inya e a um fio de alarme, a lembrar que esta é a prisão de uma mulher eleita por uma grande maioria em 1990, um acto democrático desrespeitado por generais em uniformes ridículos.

Aung San Suu Kyi vestia roupa de seda e tinha orquídeas no cabelo. Ela é uma figura impressionante e encantadora cuja face em repouso mostra a determinação que a tem aguentado na sua viagem heróica.

Sentámo-nos numa sala dominada por um retrato do tamanho da parede de Aun San, o líder da luta pela independência da Birmânia assassinado, o pai que ela nunca conheceu.

"Como a devo chamar?” – perguntei-lhe. “Bem, se não consegue dizer todo o meu nome, os meus amigos chamam-me Suu.”

"O regime está sempre a dizer que a senhora está acabada, mas aqui está, nada acabada. Como é isso?”

"É porque a democracia não está acabada na Birmânia… Olhe para a coragem das pessoas [nas ruas], daqueles que continuam a trabalhar pela democracia, daqueles que já estiveram presos. Eles sabem que a qualquer momento podem ser detidos outra vez e mesmo assim não desistem.”

"Mas como é que se pode recuperar o poder que ganharam nas eleições com um regime tão brutal contra vocês?” – perguntei-lhe.

“No Budismo ensinam-nos que existem quatro ingredientes básicos para o êxito. O primeiro é a vontade de querer algo, depois é preciso ter o tipo de atitude correcta, perseverança e sabedoria…”

“Mas o outro lado tem todas as armas?”

“Sim, mas está a tornar-se cada vez mais difícil resolver os problemas através de meios militares. Já não é aceitável.”

Nós falámos sobre a vontade das empresas estrangeiras virem para a Birmânia, especialmente as companhias de viagens, e da hipocrisia dos “amigos” no Ocidente. Eu li-lhe um comunicado de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico. “Através de contactos comerciais com nações democráticas, tais como a Grã-bretanha, o povo birmanês ganhará experiência de princípios democráticos.”

“Não, de maneira nenhuma” – respondeu, “porque os novos investimentos apenas ajudam uma pequena elite a ficar mais e mais rica. O trabalho forçado continua em todo o país, e muitos dos projectos são para o turismo e são realizados por crianças.”

“As pessoas falam da senhora como se fosse uma santa, uma trabalhadora milagrosa.”

“Eu não sou uma santa e é melhor que diga isso ao mundo!”

“Onde estão as suas qualidades pecadoras então?”

“Bem, eu zango-me facilmente.”

“O que é que aconteceu ao piano?”

“Quer dizer quando a corda se partiu? Neste clima os pianos deterioram e algumas das teclas estavam a ficar emperradas, por isso parti uma corda porque estava a pedalar com demasiada força.”

"Perdeu a cabeça… explodiu?”

"Sim.”

"É uma cena muito emocionante. Aqui está a senhora, completamente sozinha, e fica tão zangada que parte o piano.”

"Eu disse-lhe, eu tenho mau feitio.”

"Não houve alturas em que, rodeada por uma força hostil, sem contacto com a sua família e amigos, a senhora se sentiu aterrorizada?”

"Não, porque eu não sentia hostilidade para com os guardas que me rodeavam. Os medos são devidos à hostilidade e eu não sinto nada disso em relação a eles.”

“Mas isso não produziu uma solidão terrível…?”

“Ah! Eu tenho a minha meditação e tinha um rádio… E, sabe, a solidão vem de dentro. As pessoas que são livres e vivem em grandes cidades sofrem de solidão, porque vem de dentro.”

“Quais são os pequenos prazeres pelos quais anseia?”

"Gostava que um bom livro fosse lido no programa “Off the Shelf” na BBC e claro para a minha meditação… eu não gostei muito dos meus exercícios, nunca fui o tipo atlético.”

“Houve algum momento em que teve de conquistar o medo?”

“Sim. Quando era pequena e vivia nesta casa, vagueava na escuridão até saber onde podiam estar todos os demónios… e não estavam lá.”

Durante vários anos após aquele encontro com Aung San Suu Kyi tentei telefonar para o número que ela me deu. O telefone tocava e depois a linha caía. Um dia consegui.

“Muito obrigada pelos livros” – disse ela. “Foi uma alegria ler muito outra vez.” (Eu tinha-lhe enviado uma colecção de T. S. Eliot, o seu favorito, e a sátira política de Jonathan Coe “What a Carve Up!”). Perguntei-lhe o que estava a acontecer no exterior da sua casa. “Ah! A rua está bloqueada e eles [os militares] estão em todo o lado…”

"Preocupa-lhe a possibilidade de estar num beco sem saída?”

“Eu não gosto nada dessa expressão” –respondeu asperamente. “As pessoas têm saído à rua. Isso não é um beco sem saída. As minorias étnicas, como os Karen, estão a dar luta. Isso não é um beco sem saída. O desafio está presente na vida das pessoas, todos os dias. Sabe, mesmo quando as coisas ainda estão na superfície há sempre movimento por baixo. É como um lago congelado, e por baixo do nosso lago, estamos a fazer progresso, devagarinho.”

“O que é que quer dizer exactamente?”

"O que quero dizer é que, não importa o poder físico do regime, afinal de contas eles não podem parar as pessoas, não podem parar a liberdade. A nossa hora chegará.”


Fonte: http://www.newstatesman.com/200710040020

Artigo original publicado a 4 de Outubro de 2007

Sobre o autor

Este artigo é para português de Bandeira do Portugal

Cristina Santos é membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

URL deste artigo em Tlaxcala:
http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=3922&lg=po


ZONA DOS TUFÕES : 17/10/2007

 
 IMPRIMIR IMPRIMIR 

 ENVIAR ESTA PÁGINA ENVIAR ESTA PÁGINA

 
VOLVERVOLVER 

 tlaxcala@tlaxcala.es

HORA DE PARÍSI  15:47