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11/12/2017
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Boicotar os Jogos Olímpicos de Pequim?- Asor Rosa e a ideologia da guerra


AUTOR:  Domenico LOSURDO

Traduzido por  Ofelia Cangaceira


Quando me chegaram as primeiras informações acerca do convite de Alberto Asor Rosa* para boicotar os Jogos Olímpicos, pensei que fossem os Jogos de Londres de 2012 que estivessem na mira. Com efeito, é também discutível o seu apelo a um país que se distingue há vários anos pela violação da carta da ONU e que, para terminar, se tornou responsável, ao lado dos Estados Unidos, pela agressão ao Iraque. A catástrofe que daí resultou está à vista de todos: as vítimas civis contam-se às dezenas ou centenas de milhares, os refugiados aos milhões; repugnante é o insulto aos direitos do Homem que está em curso em Abu Ghraib; há décadas rejeitado, o país arrisca agora o desmembramento.

Os Jogos Olímpicos de Pequim e os de Londres

E isto não acaba aqui. Ainda no Oriente, a sombra ameaçadora de invasão ou de bombardeamentos paira agora sobre a Síria e o Irão, enquanto o espectro de uma “terceira guerra mundial”, com recurso a armamento nuclear mais ou menos “táctico”: tudo graças à política não apenas de Washington mas também de Londres. Será mesmo necessário recompensar com um convite à realização dos Jogos, que deveriam ser sinónimos de convivência pacífica entre nações, uma capital que se distingue pela sua arrogância imperial e a sua política de guerra?

De seguida, li o artigo publicado em La Repubblica de 16 de Outubro: não, Asor Rosa volta-se contra os Jogos de Pequim, e ameaça o seu boicote repetindo todos os lugares comuns da ideologia dominante. O extraordinário esforço de um país, que num curto espaço de tempo assegurou o direito à vida a centenas de milhões de homens, é desdenhosamente liquidado como a “máquina do desenvolvimento e da exploração económica” posta em marcha pela sua “estrutura centralista e autoritária”. Sem se aperceber, Asor Rosa torna-se apologista enfático do sistema político que ele pensa no entanto condenar: seria difícil legitimar a “estrutura centralista e autoritária”, se esta fosse suficiente por si só para salvar a massa imensa de homens que ainda sofrem de fome e morrem, no Terceiro Mundo. Na verdade, as coisas são bem diferentes. A “estrutura centralista e autoritária” não está certamente ausente de um país como o Egipto, que, no entanto, continua a esperar e a depender da farinha americana: para a obter, Murabak tem de se submeter à política de guerra e de opressão que os Estados Unidos e Israel conduzem no Médio Oriente. O caso da China é bem diferente que, ao sair do subdesenvolvimento, leva simultaneamente a bom termo o plano económico e a independência política obtida no seguimento de uma luta de libertação nacional épica.

É por essa razão que está em curso uma espécie de cruzada contra o grande país asiático, cruzada à qual se associa também Astor Rosa. Ei-lo listando uma série de “valores absolutos” e de “direitos universais” (liberdade de expressão, de culto, de associação, etc.), todos, ao que parece, sistematicamente violados por Pequim.

O sindicato na China

As “liberdades sindicais” também seriam reprimidas. E a desenvoltura que caracteriza o artigo no seu todo torna-se aqui mais evidente do que nunca. Foi justamente na China que o líder mundial da grande distribuição (Walt Mart) foi obrigado a reconhecer aos seus assalariados o direito à associação sindical que ele continua a recusar no mundo inteiro e nos Estados Unidos em primeiro lugar. Sim, objectar-se-á, mas nos armazéns chineses apenas o sindicato oficial é tolerado e geralmente é acusado de se aliar muito pouco à luta por aumentos salariais. Mas será esta acusação convincente?

No grande país asiático, todos os anos, entre 10 e 15 milhões de habitantes abandonam o campo (superpovoado e ainda carregado de atraso mental) para se instalarem na cidade (incluindo essas novas cidades que emergem do nada): nessas condições, mesmo a Cgil (o maior sindicato italiano, equivalente à CGT na França, ntd) do grande Di Vittorio teria posto a tónica nos postos de trabalho e, consequentemente, na expansão da economia; e, no entanto – lamenta-se o Wall Street Journal-Europe de 6 de Junho de 2007 – “desde há vários anos que os salários chineses aumentam sem interrupção a um ritmo anual de 10%”. A taxa de crescimento conheceria uma aceleração ulterior: também por causa da melhoria das condições de vida nos campos, os emigrados, actualmente, “aspiram a salários mais elevados em 16% relativamente ao ano anterior” e exigem e conseguem arrancar também alguns benefícios e melhorias ulteriores.

Mais impressionantes ainda são os dados publicados pelo semanário alemão Die Zeit de 18 de Outubro, num artigo de Georg Blume: “Neste momento, os salários mais baixos aumentam 30% por ano, enquanto a receita média progride para 14%, logo, mais rapidamente que uma economia que no entanto se desenvolve de maneira muito dinâmica”.  É verdade, o custo do trabalho aumenta mais lentamente, mas apenas por causa do desenvolvimento rápido da produtividade. Bem vistas as coisas, apesar de todos os seus limites e atrasos, o sindicato oficial chinês revela-se claramente mais maduro que os seus críticos (inclusive os de “esquerda”): ele apela à classe trabalhadora para que não se feche dentro de um corporativismo estreito, para ser, ao contrário, a protagonista do processo de industrialização e de modernização do gigantesco país asiático na sua totalidade; protagonista da luta nacional para a aquisição das tecnologias mais avançadas, de modo a não reforçar apenas a independência da China mas também a romper com o monopólio detido até agora nesse domínio pelo Ocidente. É igualmente graças à deterioração desse monopólio e à possibilidade de aceder a produtos cada vez mais sofisticados e à tecnologia em rápido desenvolvimento da República Popular da China, que países como Cuba e a Venezuela conseguem resistir à política de estrangulamento económico posto em marcha por Washington. Eles sabem bem disso, os círculos imperialistas largamente implicados na política de isolamento do gigante asiático: é através desse isolamento que passa a reafirmação da doutrina Monroe na América latina e a imposição da hegemonia estado-unidense no mundo.

 Uma estranha ideia de democracia

Asor Rosa sobrevoa tudo isto de muito alto. Entre os “valores absolutos” e os “direitos universais” que ele enumera, não figuram nem o direito à paz nem o direito das nações de beneficiarem da democracia nas relações internacionais e a não terem de se sujeitar à lei do mais forte. São assim ignorados ou afastados os “valores absolutos” e os “direitos universais” apagados pelos aspirantes a patrões do mundo, os quais, graças precisamente a esse apagamento, podem atribuir-se a missão de exportar a democracia para o mundo inteiro, tendo recurso a todos os meios, incluindo embargos económicos, ameaças de todo o tipo e agressões militares reais.

Despreocupado com tudo isso, Asor Rosa convida a Itália (e indirectamente o « Ocidente democrata capitalista ») a lançar um ultimato: se no dia da abertura dos Jogos, “todos os órgãos da imprensa e televisão chineses” não tornarem público “um documento a favor dos direitos universais de expressão e de associação”, os Jogos Olímpicos de Pequim serão boicotados. Uma visão singular da democracia torna-se clara aqui: não apenas os dirigentes do Comité Olímpico internacional, mas também o Secretário-geral da ONU, eleito pelos representantes dos países do mundo inteiro, se pronunciaram repetidamente e com força contra a ideia do boicote; Asor Rosa, ao contrário, atribui em última análise às ex-potências o direito soberano de julgar e punir um país outrora por eles atingido, através de agressões militares repetidas e infames. É uma atitude em tudo estupefaciente que esse mesmo Asor Rosa reconheça que na China apenas uma “minoria da população” pense como ele; e, no entanto, em nome do “valor absoluto” da democracia, a maioria dos habitantes do país mais populoso do mundo é chamada a inclinar-se perante a vontade das grandes potências ocidentais (e do grande intelectual romano)!

Mas concentremo-nos nos “direitos universais de expressão e de associação”, em nome dos quais é lançado o ultimato. Por um lado, Asor Rosa ignora os notáveis progressos realizados pela China, em condições difíceis, nesse domínio. Nos anos 70 do século XX, Deng Xiaoping sublinhava a importância do governo da lei; ao contrário, a “nova esquerda” italiana e ocidental continuava a celebrar a Revolução Cultural que, neste aspecto, juntamente com o socialismo realista, olhava as liberdades e garantias “formais” com um desprezo soberano. Entretanto, a tutela dos direitos do Homem foi inserida na Constituição chinesa. Não se trata de um gesto “formal” ou de um caso isolado: no país está em curso a tradução sistemática dos grandes textos da cultura ocidental, inclusive os comprometidos em larga medida com a teorização dos direitos do Homem, problemática que tende a adquirir a dignidade de disciplina universitária; de forma cada vez mais geral, vê-se crescer rapidamente o número de organizações não governamentais, de jornais, de universidades, de estudantes e diplomados que estudam no Ocidente, e de professores ocidentais chamados a ensinar nas universidades chinesas. Claro que o caminho a percorrer ainda é longo, e o grande país asiático não se quer abrir imediatamente à “democracia” da mesma forma que o fizeram a Jugoslávia e a Rússia: países que sofreram uma catástrofe económica, social, nacional e humanitária, com um Ocidente pronto a tirar lucros sem escrúpulos a fim de alargar a sua esfera de influência e de domínio.

Mas enquanto ignora, por um lado, os progressos feitos pela China mesmo no âmbito dos “direitos universais de expressão e de associação”, por outro lado Asor Rosa embeleza o comportamento da Itália e do Ocidente “democrático e capitalista”. Mas quem é que, na Primavera de 1999, assassinou com bombardeamentos aéreos os jornalistas jugoslavos culpados de não partilhar da opinião das cimeiras e dos ideólogos da NATO e de se obstinar a condenar a agressão sofrida pelo seu país? E quantos jornalistas foram “acidentalmente” mortos pelas forças de ocupação no Iraque ou na Palestina? Será que os habitantes de Gaza beneficiam dos “direitos universais de expressão e de associação”, que depois de terem votado no Hamas no decurso de eleições livres, se vêem agora condenados ao boicote, ao estrangulamento económico e ao embargo? Para terminar: os árabes e os muçulmanos que nos Estados Unidos ousem contribuir com uma subscrição a favor da população da Gaza e do Hamas arriscam-se a ser perseguidos e condenados enquanto “terroristas”.

No seu tempo, Clinton, ao pronunciar o discurso que inaugurava o seu primeiro mandato presidencial, exaltava os Estados Unidos como sendo a mais antiga democracia do mundo e portanto como o país chamado a “conduzir o mundo” sobre a via da liberdade, no quadro de uma missão “sem idade”; naturalmente, o presidente estado-unidense não fazia referência nem ao aniquilamento dos peles vermelhas, nem ao regime de escravatura e de opressão racial infligida durante séculos aos negros, nem à repressão impiedosa e às práticas de genocídio postas em prática pelos Estados Unidos nas suas verdadeiras colónias (Filipinas) e nas suas semi-colónias na América Latina; Asor Rosa argumenta da mesma maneira. Quando ele propõe, em matéria de “direitos universais de expressão e de associação” erigir um tribunal, no âmbito do qual a China é imputada e a Itália e o Ocidente “democrático e capitalista” são os juízes, ele suprime do quadro as infâmias antidemocráticas que ainda hoje mancham o Ocidente, quando se trata de dobrar a resistência dos países e dos povos que ele entende poder submeter ao seu domínio.

É um traço característico da falsa consciência do Ocidente abstrair-se da sorte reservada às suas vítimas para se poder autocelebrar como lugar de liberdade; e é a partir dessa falsa consciência que o Ocidente pode fazer passar as suas guerras de contrabando como uma contribuição para a difusão da democracia. Asor Rosa faria bem em reflectir sobre tudo isto. Seria triste ver um prestigiado intelectual de esquerda enveredar pelo caminho da tradição cultural pró-colonialista e pró-imperialista, e tornar-se um ideólogo da guerra (quer seja fria ou quente)! 

*Alberto Asor Rosa (1933) é professor de literatura na La Sapienza, em Roma, é escritor e crítico literário.


Fonte:  L’Ernesto. Rivista comunista, Setembro/Outubro de 2007, pp. 59-61.

Sobre o autor
Traduzido da
versão francesa de Marie-Ange Patrizio para português de   por Ofelia Cangaceira para Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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ZONA DOS TUFÕES : 22/12/2007

 
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