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22/10/2017
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Salvar a economia, desmantelar o império

Uma grande negociação global?


AUTOR:  Michael HUDSON

Traduzido por  JF/http://resistir.info/



Xadrês cabalístico

A profunda crise financeira e económica de hoje não pode ser suavizada sem tratar de um certo número de problemas acerca dos quais o público realmente não quer ouvir falar. Simplesmente mencioná-los levanta uma muralha de dissonância cognitiva.

Em primeiro lugar, o problema da dívida actual não é marginal pois tornou-se estrutural — e problemas estruturais não podem ser resolvidos com meros paliativos marginais. Aquilo a que Alan Greenspan chamou "criação de riqueza" resultou ser uma inflação do preço dos activos — aumentando os valores da propriedade e o mercado de acções a crédito. A Bolha Económica carregou de dívidas as habitações, o imobiliário e todas as companhias, ao passo que os cortes fiscais de Bush para os escalões de rendimento mais elevados forçaram os orçamentos federal, estaduais e locais a incidirem muito mais profundamente em dívidas.

Esta política podia continuar enquanto a dívida inflacionasse os preços da propriedade a um ritmo mais rápido do que a taxa de juro que tinha de ser paga. Mas pagar encargos de juros e amortizações afastava os gastos dos consumidores e dos negócios do consumo e da produção. Este é o significado da expressão "deflação da dívida". Os sectores das finanças e da propriedade recebiam o rendimento anteriormente gasto com bens e serviços. Se alguém tem de pagar serviço de dívida não está disponível para empréstimos que foram emitidos para aumentar os preços do imobiliário e das acções. Assim, este rendimento não pode ser gasto com bens de consumo (para proprietários de casas) ou para investimento de capital (para companhias alavancadas por dívida). O efeito foi arrefecer vendas e o rendimento dos negócios, e portanto o mercado de arrendamento comercial e imobiliário.

Em 2006 foi atingido um ponto em que o serviço da dívida cresceu a ponto de exceder o rendimento operacional ou a capacidade de muitos proprietários de casas para arcarem com a mesma — especialmente quando as taxas de juro saltaram. A ideia de salvamento do Fed, de salvamentos das dívidas perdidas, é simplesmente emprestar aos devedores o suficiente para eles pagarem aos seus banqueiros e outros credores, subsidiando a sua insolvência com o bastante para que se mantenham em dia com obrigações que de outra forma não poderiam cumprir. A alternativa é situação líquida negativa: a venda de casas, de edifícios de escritórios e de companhias hipotecadas como colateral e venda a preços abaixo da hipoteca ou do valor do título do empréstimo. Tal subsídio meramente compra tempo até o problema da dívida tornar-se ainda mais profundamente ensanguentado.

A realidade é que o nível de dívida existente não pode ser quitado. O problema não está de modo algum confinado à base da pirâmide económica e sim concentrado no topo. O próprio governo dos EUA tornou-se o maior devedor subprime do mundo. A sua dívida de US$2,5 milhões de milhões (trillion) a bancos centrais estrangeiros — e a ainda maior dívida do sector privado a outros estrangeiros — não pode ser paga, dado o peso dos défices militar e comercial do país. O reconhecimento deste facto político no núcleo do sistema financeiro internacional levou governos e investidores estrangeiros a desfazerem-se de títulos e acções denominados em dólares. Isto tem conduzido para baixo a taxa de câmbio do dólar, elevando os preços dolarizados do petróleo e de outras matérias-primas.

O que é irónico é que quanto mais crescem os défices comerciais e os gastos militares no estrangeiro, maior proporção destes dólares são entregues a bancos centrais estrangeiros por exportadores de outros países e outros receptores de fundos estado-unidenses. Os bancos centrais encontram então, eles próprios, pouco onde gastar o seu dinheiro — excepto comprar títulos do Tesouro dos EUA. Eles compraram tantos que os americanos não têm de arcar com o custo do défice do orçamento federal dos EUA comprando os títulos para financiá-lo. Os estrangeiros compraram estes títulos. Isto significa que, com efeito, eles emprestam ao governo dos EUA os dólares e divisas estrangeiras para travar a sua guerra no Médio Oriente — uma guerra que a maior parte dos eleitores estrangeiros não apoia! Financiar o défice de pagamentos dos EUA e o défice do orçamento federal é subsidiar esta guerra.

Nestes últimos anos, governos estrangeiros têm procurado alguma alternativa à compra de títulos do Tesouro dos EUA. Mas quando os chineses tentaram comprar activos da Union Oil, o Congresso vetou o negócio, acusando a tomada posse por aquele governo de conduzir à estrada da servidão. Para a China comprar privatizações estado-unidenses teria de acreditar que o Congresso dos EUA permitiria suspender portagens e outras taxas de acesso à infraestrutura o suficiente para compensá-la pelo declínio do dólar. A resposta mais provável seriam novas queixas contra o Perigo Amarelo. Assim, os governos estrangeiros encontram-se enterrados em dólares que não podem utilizar para comprar activos reais nos EUA, e também não podem gastar com exportações estado-unidenses pois o país agora está a desindustrializar-se. Tudo o que eles podem fazer é emprestar o dinheiro ao governo dos EUA.

BANCARROTA, MORATÓRIA OU REPÚDIO

Este é o caminho que levou à bancarrota dos banqueiros Medici uns poucos séculos atrás. Em 1776, Adam Smith chegou à conclusão de que nenhum governo havia alguma vez reembolsado a sua dívida externa. Nenhum sector privado tão pouco reduziu o seu nível de endividamento por muito tempo — excepto através da bancarrota, da moratória e do repúdio. São estas as opções que enfrentamos hoje. Mas elas não são politicamente aceitáveis para discussão pública. A última vez que os profissionais da Teoria Económica trataram do problema da dívida global foi na década de 1920, em resposta ao não pagável alto nível de reparações alemãs e dívidas de armamentos dos aliados aos Estados Unidos. Desde aquele tempo tem havido muita conversa sobre teoria monetária, mas pouca atenção à mensuração da capacidade das economias para cumprirem as suas despesas com dívidas internas e externas.

Esta semana o Fed tentou reverter o mergulho nos preços dos activos inundando o sistema bancário com um crédito de US$200 mil milhões. Foi permitido aos bancos transferirem os seus maus empréstimos hipotecários e outros empréstimos para o Federal Reserve ao valor nominal (par value) (ao invés de a preços a apenas 20% da "marca do mercado"). A estória de fachada do Fed é que esta infusão capacitará os bancos a retomarem a concessão de empréstimos a fim de "fazer com que a economia se mova outra vez". Mas os bancos estão a utilizar o dinheiro para apostar contra o dólar. Eles estão a tomar emprestado do Fed a uma taxa de juro baixa, e a comprar títulos denominados em Euros que rendem uma taxa de juro mais elevada — e, neste processo, a efectuar um ganho na divisa quando o Euro ascende contra activos denominados em dólar. O Fed, portanto, está a subsidiar a fuga de capital, exacerbando a inflação ao tornar mais caro o preço das importações (a principiar pelo petróleo e outras matérias-primas). Estas commodities não são mais caras para os compradores europeus, mas apenas para compradores que pagam com dólares depreciados. (Isto também esmaga a América Latina e outros países na área do dólar).

SÃO OS BANCOS CENTRAIS NECESSÁRIOS?

O comportamento do Fed (não apenas sob Alan Greenspan) leva a perguntar se os bancos centrais são realmente necessários. A sua ideia sempre foi patrocinar regras orientadas para o credor, a desregulamentação financeira e salvar o sector financeiro a expensas públicas, encurralando a economia em dívidas. Mas, tendo feito isso, o Federal Reserve não pode resolver os problemas que criou sob o regime Greenspan. O seu papel — e, na verdade, aquele dos bancos centrais em geral — é prosseguir precisamente a espécie de políticas que criou a quadratura financeira de hoje.

Desde que foi fundado o Banco da Inglaterra, em 1694, os bancos centrais de todo o mundo representaram os interesses do sistema bancário comercial. Infelizmente, o modo de actuar (time frame) financeiro sempre foi curto-prazista. Os bancos ganham dinheiro ao encontrarem cada vez mais clientes para lhes emprestar fundos, enquanto os banqueiros de investimento e casas correctoras ganham as suas comissões e correm. O seu interesse está na promoção da Economia da Bolha que induzirá compradores imobiliários e atacantes de corporações a tomarem emprestado a fim de cavalgarem a onda de inflação do preço dos activos. Esta concessão de empréstimos parece, à primeira vista, ser auto-sustentada pois os prestamistas aumentam os preços da propriedade, acções e títulos. Estes activos podem então ser penhorados como colateral para empréstimos ainda maiores pois preços e dívidas aumentam em conjunto.

Esta é a espécie de "criação de riqueza" para a qual o sr. Greenspan tentou ganhar crédito. Mas, ai de nós, não é um processo que de um modo geral proporcione estabilidade para a economia. Quando os interesses do sector financeiro chegam a opor-se àqueles da economia "real" de consumidores e produtores, a política do Federal Reserve procura resolver o problema da dívida ainda com mais dívida, na forma de salvamentos (bailouts) de bancos que efectuaram maus empréstimos. O salvamento é concebido para permitir aos bancos conceder dinheiro a fim de apoiar preços de activos e preservar o preço de mercado do colateral penhorado para suportar seus empréstimos hipotecários e emprestar a companhias altamente alavancadas e hedge funds. Ao salvar bancos para aumentar os seus empréstimos a fim de atingir estes fins, o Fed tornou-se um jogador activo numa guerra financeira para endividar mais o imobiliário, o trabalho e a indústria.

O resultado é uma intrusão sem precedentes do Grande Governo, não de uma maneira socialista e sim de um modo que utiliza os fundos públicos para proteger a finança e a propriedade no topo da pirâmide económica. Isto é feito tomando um caminho estritamente financeiro para a servidão, pela promoção de um regime de escravidão pela dívida (debt peonage). Através do sistema do Federal Reserve o governo está a "resolver" o fim da Bolha da Economia efectuando bastantes empréstimos para endividar a indústria e a agricultura, o trabalho e os capitais tangíveis, quando concede emprestado o dinheiro para pagar serviço de dívida de empréstimos que de outra forma cairiam em incumprimento.

Mas como foi notado acima, a dívida mais problemática é a estrangeira, e o maior devedor subprime internacional é o governo dos EUA. Ele agora está endividado para com governos estrangeiros (através dos haveres dos seus bancos centrais cujas reservas montam a US$2,5 milhões de milhões) e a investidores privados (mais uns poucos milhões de milhões) além da capacidade de pagamento do país, para não mencionar que para além da sua vontade política de assim fazê-lo. É por isso que os estrangeiros não estão mais dispostos a aceitar os dólares a serem libertados pelos consumidores estado-unidenses, investidores dos EUA a comprarem empresas estrangeiras e os militares americanos a estenderem as suas bases no exterior.

E quando o dólar cai, os preços das importações aumentam, a começar por combustíveis e minerais.

Alguém tem de pagar. Como podem proprietários de casas e de negócios pagarem as suas dívidas se os seus custos operacionais com aquecimento, electricidade e transporte estão a absorver o seu rendimento?

O único meio de travar esta hemorragia é negociar um cancelamento da dívida, a começar pelos títulos do Tesouro dos EUA possuídos por bancos centrais estrangeiros. Mas o que é que os EUA têm a oferecer? Ao pedir que governos estrangeiros façam um sacrifício económico desta magnitude não pode haver negociação sem que o governo dos EUA proponha um grande acordo global. Tendo poucas compensações a oferecer, o caminho mais promissor de fazer com que países estrangeiros abandonem voluntariamente os seus direitos financeiros sobre a economia dos EUA deve incluir a única coisa que a América pode oferecer — a dimensão militar.

Só vejo um caminho para ser feito isto. Os Estados Unidos concordariam em desmantelar todas as suas bases além mar (ou pelo menos aquelas fora do Hemisfério Ocidental). Isto significaria abdicar do seu sonho de impor hegemonia mundial pela força das armas. Isto também o libertaria — e aos outros países — da corrida às armas pós-Guerra Fria. Ajudaria a reviver a produção e consumo da economia "real" ao libertar receitas para gastos com consumo e novo investimento directo. No processo libertaria os Estados Unidos do "capitalismo do Pentágono", que é na base de contratos de produção cost-plus que aparentemente levaram a engenharia industrial americana a ser incapaz de utilizar métodos de produção que minimizem custos, perdendo por conseguinte o que costumava ser a sua vantagem tecnológica competitiva.

Há países estrangeiros que começam a encarar os Estados Unidos da mesma perspectiva que a administração Bush encarava outros países. Qualquer potencial económico tem por definição carácter militar. Segue-se que o que PODERIA ser, deveria ser reprimido desde o início. Os Estados Unidos tornaram-se a principal força desestabilizadora agressiva do mundo. Sem tratar abertamente com este "elefante militar na sala", qualquer alívio de direitos estrangeiros sobre a economia dos EUA por governos estrangeiros simplesmente permitiria à América manter e mesmo aumentar a sua presença militar global, construindo ainda mais bases no estrangeiro e impondo uma drenagem da balança de pagamentos ainda maior sobre o dólar. "Apoiar o dólar" é sinónimo de subsidiar o vício do Ramo Executivo com a diplomacia militar hegemónica.

Infelizmente isto não é uma verdade que o público americano queira ouvir.


Fonte: http://www.counterpunch.org/hudson03152008.html .

Artigo original publicado a 16 de Março de 2008

Este artigo é para português de


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IMPÉRIO: 25/03/2008

 
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