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13/12/2017
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Honra ou morte – O suicídio do coronel Ted Westhusing


AUTOR:  Juan GELMAN

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


O 5 de junho marcará três anos do suicídio do coronel norte-americano Ted Westhusing. Ele fora promovido poucas semanas antes e faltavam-lhe cinco para terminar sua missão no país ocupado. Encontraram-no em seu trailer com o orifício de um tiro atrás da orelha esquerda, disparado por sua Beretta 9 milímetros de serviço. Na realidade ele não se matou: matou-o seu sentido de honra militar.

Não poucos veteranos do Iraque e Afeganistão se suicidaram – 687 até 30 de março de 2007 (The Independent, 1-4-07) – seja em pleno serviço, seja ao voltar para casa, por razões que um grupo de psicólogos das forças ocupantes segue investigando. As razões que levaram à morte pela própria mão o coronel Westhusing – o militar de patente mais graduada até o momento – parecem claras, a principal ao menos: sua descoberta da carência de valores militares em que acreditava profundamente.

Era professor de filosofia e de inglês em West Point, diplomara-se em estratégia militar e em filosofia russa, publicara trabalhos sobre seu tema central, a ética militar. Sua tese de doutorado em filosofia na Universidade de Emory, Atlanta, intitulou-se A virtude competitiva e cooperativa no ethos bélico americano, um texto que exige do “guerreiro que consagre todo seu ser à defesa da Constituição dos EUA, a quem jurou lealdade” (Texas Observer, 9-3-07), do qual era um praticante verdadeiro.

Em fins de 2004, convencido de que o cumprimento de seus ideais demandava-lhe acudir à guerra inventada por W. Bush, abandonou a segurança da cátedra para oferecer-se como voluntário no Iraque. Foi destinado ao comando multinacional de segurança sob as ordens diretas dos generais Joseph Fil e David Petraeus, o mesmo que, hoje comandante-em-chefe das tropas ocupantes, compareceu diante do US Senate, na semana passada, para pleitear a eternização da ocupação do Iraque. Determinaram a Westhusing a tarefa de supervisionar o trabalho da USIS (US Investigation Services), uma empresa privada que o Pentágono contratou para treinar as tropas do “governo” iraquiano em operações especiais anti-terroristas. Então, viu-se cercado pelas contradições entre o filósofo que faz perguntas a si próprio e o soldado que deve obediência.

O contrato da USIS, no valor de 77 milhões de dólares, obriga a empresa a proporcionar instrutores em matéria de segurança, e seu único gasto é o pagamento do salário dos 15 mercenários israelenses que enviou ao Iraque, uns 7.500 dólares mensais por cabeça. Westhusing comprovou que alguns deles não cumpriam seu trabalho, que a USIS roubava o governo e que esse pessoal assassinava civis iraquianos por mero capricho. Remeteu a seus superiores um detalhado relatório sobre a corrupção dominante e a resposta foi um silêncio que o levou a pensar que a situação também beneficiava seus chefes. Assim, começou a descer os degraus da ansiedade e do desespero.

“Nos e-mails que enviava para sua família, Westhusing mostrava-se particularmente perturbado por uma conclusão que lhe foi imposta: valores militares tradicionais com o dever, a honra e o país haviam sido substituídos pelo afã do lucro no Iraque, onde os EUA chegaram a depender excessivamente dos mercenários para tarefas que antes os militares realizavam” (The Hufftington Post, 10-4-08). Junto ao suicida jazia uma carta de quatro páginas, escrita em letras maiúsculas, que dirigiu a Fil e Petraeus. Disse em seu parágrafo inicial: “Não estou seguro se posso confiar em vocês ou não” (www.texasobserver.org, 9-3-07).

A carta não fala com meias palavras: “Obrigado por me dizer que era um bom dia até que lhes informei (sobre USIS). A vocês só interessa a carreira e não o apoio a seu pessoal... Não posso ser parte de uma missão que entranha a corrupção, o abuso dos direitos humanos e a mentira. Estou farto, chega. Não decidi voluntariamente (vir ao Iraque) para secundar a corrupção, os mercenários ávidos de dinheiro, comandantes somente interessados neles mesmos. Vim para servir honradamente e me sinto desonrado... Para que servir quando não se pode cumprir a missão, quando já não se acredita na causa, quando cada esforço que fazemos choca-se com mentiras, a falta de respaldo e o egoísmo? Chega. Olhem para si próprios, comandantes. Vocês não são o que pensam que são e eu o sei” (www.alternet.org , 10-4-08). Soube e entrou em uma profunda depressão. Na semana anterior ao suicídio foi visto desanimado, ausente do que sucedia e com freqüência olhando fixamente para sua Beretta 9 milímetros. O católico Westhusing, soldado e filósofo, encontrou somente essa maneira de terminar com o evidente pisoteio de sua fé na honra militar. Há desilusões que matam.


Fonte: www.pagina12.com.ar/diario/contratapa/13-102575-2008-04-17.html


Artigo original publicado em 17 de Abril de 2008

Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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IMPÉRIO: 21/04/2008

 
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