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22/10/2017
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Angola 1988: A batalha de Cuito Canavale


AUTOR:  José STEINSLEGER

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


Havana, fins de 1984. “Vale a pena morrer tão longe?” A encantadora jovem de verde oliva, ao meu lado na famosa sorveteria Copelia, abandona o tratamento de “companheiro” e lança-me um temível olhar de desprezo: “Veja, senhor. Este país foi feito com o sangue de milhões de escravos”. Deu meia volta, e ali me deixou plantado, sozinho e ruborizado de vergonha, sem vontade de tomar o maldito sorvete.

Luanda, Angola, 5 de novembro de 1975. O jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, não muito amigo da revolução cubana, embora fosse a melhor pena branca que o Ocidente possuiu para nos fazer amar os africanos, descreve a situação dos cães de raça abandonados pelos colonialistas portugueses que, em massa, fugiram da cidade “… fechada e condenada à morte”. Boxers, bulldogs, galgos, dobermans, salsichas, cockers, cachorros de madame, mastins, terriers escoceses, dogues, em busca de comida. “Se os cães foram para o norte, encontraram a FNLA. Se foram para o sul, encontraram a UNITA”.

A Frente de Libertação Nacional (FNLA, respaldada pelo Congo Kinshasa, e os Estados Unidos) e a União Nacional pela Independência (UNITA, apoiada pelos racistas da África do Sul), estão a ponto de tomar Luanda, para impedir que Agostinho Neto, líder máximo do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), proclame a independência da colônia portuguesa.

Ao anoitecer, quando o canhoneio de ambas as forças anuncia o iminente massacre dos exaustos soldados e civis do MPLA, Kapuscinski aponta: “Cessou a grande chuva tropical mas seguia chuviscando. De repente, longe, acima, do lado esquerdo, acenderam-se dois refletores: um avião estava aterrissando… Era um turbo hélice Britania, das linhas aéreas cubanas. Depois, acima, de novo os refletores, e aterrissaram quatro aviões… Os pilotos apagaram os motores e fez-se o silêncio. Aproximou-se a escadinha e dos aviões começaram a descer soldados cubanos com sacos de dormir e com armas”.

A Operação Carlota começara. Solidariedade vinda de longe, desde os tempos em que o reduzido contingente guerrilheiro de Che Guevara apareceu no Congo. Depois, a “Revolução dos Cravos” em Portugal (abril de 1974) acelerou o processo de independência e a conseqüente desintegração de suas colônias africanas (Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé, Moçambique, Angola).


Soldados cubanos e angolanos na frente

Desprezando seu inimigo de sempre (situado a menos de 200 quilômetros), Fidel Castro dirige a Operação Carlota, que na Guiné é coordenada por seu amigo, o presidente Sekou Touré. Uma ponte aérea de 11 mil quilômetros é estabelecida sobre o Atlântico. Em um abrir e fechar de olhos aterrissam 36 mil soldados cubanos em Luanda, unidades completas de tanques, artilharia terrestre e antiaérea, aviões Mig-21 e Mig-17 e unidades de infantaria blindada até o nível de brigada.

A tomada de Luanda detém a ofensiva das forças imperialistas e, em 11 de novembro de 1975, Agostinho Neto lê o texto de independência da república popular. Entretanto, o regime racista sul-africano não respeita os acordos, recusando-se a abandonar a ex-colônia alemã da Namíbia (ex-Sudoeste Africano). A guerra continua.

Em janeiro de 1988, vendo-se na impossibilidade de repelir os ataques sul-africanos desde a Namíbia, o governo angolano volta a solicitar a ajuda cubana. Moscou se opõe. Fidel Castro responde com 40 mil homens. Em 23 de março de 1988, após enfrentar-se com duas divisões completas do exército mais poderoso da África (armas nucleares, inclusive), a “supremacia branca” beija o pó da derrota nas mãos das tropas angolanas e cubanas.

Em dezembro, depois de várias rodadas de negociações entre Angola, Cuba, África do Sul e um “mediador” (Estados Unidos…), são concluídos os acordos que estabelecem o processo de independência da Namíbia, garantidos pelas Nações Unidas. O total de baixas cubanas sobe a 2.016 combatentes.

Tad Szulc, famoso jornalista do The New York Times, escreveu: “Ao contrário de idéias muito difundidas, foi idéia de Castro – certamente não foi dos russos – intervir abertamente com tropas de combate cubanas na guerra civil de Angola… O certo é que Castro antecipou-se com elas a todos os demais, e foi o primeiro a entrar no conflito com uma impressionante demonstração de instinto, imaginação e audácia” (Fidel: un retrato crítico, Grijalbo, 1987, p. 730).

O investigador mais diligente da presença de Cuba na África, Piero Gleijeses (Universidade Johns Hopkins), por sua vez, escreve: “Por respeito com a sensibilidade do MPLA, as poucas publicações cubanas sobre a Operação Carlota diminuíram sempre a importância do papel desempenhado pelas tropas cubanas, dando o crédito, em seu lugar, ao MPLA (Misiones en conflicto, La Habana-Washington y África, 1959-1976, Ed. Ciencias Sociales, La Habana, 2002, p. 458).

A batalha de Cuito Canavale, há 20 anos, selou a sorte do colonialismo na África. Sem ela, estadistas da paz como o sul-africano Nelson Mandela ainda estariam prisioneiros sob o regime do apartheid.


Mandela e Fidel


Fonte: La Jornada

Artigo original publicado a/em

Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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MÃE AFRICA: 21/04/2008

 
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