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22/10/2017
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Ezra: o retrato de uma infância africana atormentada


AUTOR:  Falila GBADAMASSI

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


Uma das facetas da infância maltratada na África é a dos meninos soldados. No filme Ezra, que estréia na França esta semana, o realizador nigeriano Newton I. Aduaka aborda esta traumática experiência com uma sensibilidade e um sentido crítico inéditos no cinema.

Ezra é um menino soldado que procura um centro de reabilitação do Unicef, ao qual se incorporou no final da guerra de Serra Leoa. Não gosta, mas, sobretudo, tem que enfrentar as afirmações de sua irmã, Onitcha, que lhe acusa de matar seus pais. Ele nega firmemente. E sabe se defender bem. Para começar, Ezra deve remover um passado doloroso que o presente não parece perdoar. Como pode seguir vivendo se foi um menino soldado? Se a sociedade não leva em conta seu trauma, e quando estende a mão ainda seguem o condenando? Newton I. Aduaka apresenta, em Ezra, um terrível drama psicológico, que aborda as vivências dos meninos nas guerras no aspecto mais fundamental, mas que freqüentemente é descuidado: sua reconstrução psicológica.

P – Você optou por abordar a questão dos meninos soldados na forma de drama psicológico. Por quê?

R – É muito fácil fazer um filme sobre a guerra, as matanças etc. O trauma psicológico que a guerra origina é pouco mencionado no cinema. A guerra é algo que marca profundamente, que afeta o plano psicológico, é uma experiência traumática que atormenta durante muito tempo. Queria ir mais além da guerra e combinar esta dimensão com a da justiça. Quem é responsável? A pessoa que dispara, a que arma ou quem a financia? Há vários níveis de responsabilidade. Mas o que mais me inquieta é o fato de que os meninos sejam considerados como os primeiros responsáveis, quando são as primeiras vítimas. Queria desenredar essa trama com o objetivo de permitir que cada um examine os diferentes níveis de responsabilidade.

P – Você é especialmente crítico sobre a reinserção dos meninos soldados?

R – O filme nasceu de minha decepção pela forma com que os conflitos são tratados, pelo modo como são abordados pelas Nações Unidas, pelo fato de que as Nações Unidas estejam informadas do que ocorre, sabem quem são os traficantes e os canais que utilizam para vender as armas. E, finalmente, porque tudo o que são capazes de oferecer aos meninos resume-se a três meses de acompanhamento psicológico e a ensiná-los a fazer cestas e sabão. Depois eles são enviados a pessoas que pretendem acolhê-los Alguns não encontram família ou não chegam a viver em um marco familiar, portanto voltam às ruas, drogam-se, e enrolam-se outra vez em uma nova guerra porque é só o que sabem fazer. Não têm mais vida. E o toque final do pastel: devem comparecer diante de uma “comissão de verdade e reconciliação”, que mais se parece com um tribunal de justiça. Minha pergunta, uma vez mais, é: tudo isso é justo?

P – Ezra mostra as seqüelas psicológicas de um menino soldado. Você também foi um menino da guerra. Como vivencia o fato?

R – O processo é tão longo que foi durante a realização de Ezra que me dei conta de que isso ainda me afetava. Apesar de que tenho 32 anos, ainda percebo vividamente muitas imagens da guerra de Biafra. O país parecia uma cidade fantasma, Biafra estava destruída. Essa guerra transtornou profundamente minha vida, para o bem ou para o mal. Até hoje, a questão de Biafra é um tema tabu em meu país, ninguém quer falar do assunto. A guerra civil de Biafra foi o primeiro conflito “pós-colonial”. Causou mais de três milhões de mortes em poucos meses. Os britânicos financiaram essa guerra. Proporcionaram as armas e disseram ao mundo inteiro que se encarregariam do assunto porque a Nigéria era sua ex-colônia. A comunidade internacional deixou-se convencer sem protestar. O que ocorreu em Biafra é um crime contra a humanidade porque utilizaram a fome como uma arma de guerra. A ajuda humanitária não era autorizada no território biafrense. As pessoas morriam de fome, de desnutrição, os meninos do kwashiorkor. Tudo isso revela a hipocrisia que existe em torno das guerras. O filme é uma condenação da guerra, mas, sobretudo, da imoralidade de toda essa gente que permite que aconteça esse tipo de coisa, da hipocrisia das organizações e dos dirigentes africanos implicados nesses conflitos.

P – O que se sente quando se recebe o Etalon d’or du Yennega (Primeiro prêmio da 20ª edição do Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou, N.deT.) por um filme tão pessoal?

R – O prêmio é, claro, um belo reconhecimento, algo muito estimulante. Fiquei bastante surpreso. Mas conseguir rodar Ezra, em si mesmo, já foi uma grande recompensa. Tudo o que veio depois é um presente suplementar, mas tudo segue sendo duro quando se fez um filme tão doloroso. Talvez tivesse desfrutado mais o prêmio se o filme fosse menos pessoal, assim como o personagem Ezra, seu sistema de valores… Passei por muitos avatares e minha vida segue mudando, tal como ocorre com minha percepção das coisas depois de Ezra. Sem dúvida, é uma homenagem que aprecio muito porque é muito respeitada. Toda a equipe se alegrou. Mas não é por esse motivo que faço cinema. Seguirei realizando filmes tão comprometidos como Ezra.

P – Como se transformou em cineasta?

R – Por casualidade. Deixei a Nigéria devido à ditadura de Sony Abacha. Fecharam todas as escolas e universidades. Tinha uma tia que vivia na Inglaterra e que me possibilitou prosseguir meus estudos. Terminei por decidir que não queria me transformar em mais um engenheiro eletrônico. Se seguisse no âmbito científico, viraria um inventor, porque sou criativo. Tinha que encontrar uma disciplina para expressar minha criatividade. Descobri o cinema e decidi que podia ser meu oficio. Tinha 19 anos, gostava de música, havia feito um pouco de fotografia… O cinema reúne muitas disciplinas, a técnica me remetia ao meu passado de engenheiro. A idéia de criar a partir da tecnologia é algo que me é familiar. O cinema parecia conter tudo o que necessitava para acalmar minha sede de novos desafios. Os desafios me agradam. Ezra é um deles. Entreguei-me totalmente nesse filme porque prometi a mim mesmo, e também aos meninos que entrevistei em Serra Leoa durante minhas investigações, que faria o melhor filme possível sobre esse assunto. Foi o que tentei fazer, e não foi fácil.

Voltando à minha carreira, terminei meus estudos aos 23 anos, e me dei conta de que não é fácil ser um realizador negro na Grã-Bretanha. Muitos cineastas negros não podem trabalhar, alguns realizadores reconhecidos, como John Aconfra e Isaac Julian, seguem lutando. A história do cinema negro na Inglaterra é lamentável. É comparável a um boicote. Assim que me voltei para o cinema independente que emergia, então, nos Estados Unidos, com realizadores como Spike Lee. Comecei também a fazer filmes independentes e assim enfoquei minha carreira. Ezra foi o primeiro filme para o qual recebi subvenções.

P – Por quanto tempo você trabalhou nesse filme?

R – Estive três anos procurando, em Serra Leoa, as formas de organizar o cenário. Lá há muitos meninos soldados e foi onde fiz os testes.

P – Agora vive em Paris, onde ser um realizador negro é pior do que descrevia antes como um boicote...

R – Vivo em Paris, e é verdade que rodar um filme sobre as experiências da imigração é quase impossível. O que reflete claramente a hipocrisia da política de financiamento da França, no que se refere ao cinema e aos realizadores africanos. Eles têm uma idéia bem precisa do que querem ver. Sei porque vivi na Grã-Bretanha. Se desejo rodar uma história sobre meu povo, não há problema. Mas se é para contar a vida de um imigrante africano, é muito mais difícil. Há um tipo de censura sobre o que podem fazer os africanos. Tudo isso cria a ilusão de que a França sustenta o cinema africano, mas é unicamente para um gênero de filmes. Encerram o cinema africano em uma espécie de gueto.

P – Como cineasta nigeriano, o que pensa do boom de Nollywood?

R – A indústria da imagem feita por africanos para africanos ameaça o cinema ocidental. O interesse de Nollywood reside no fato de que as pessoas vêem suas próprias histórias. Mas esta indústria tem que ganhar em qualidade, e assim será porque o público reclama por ela. O mais difícil já está feito: captar espectadores, porque o público quer ver filmes que o informe sobre sua própria realidade, ao mesmo tempo em que o diverte.

P – Se entendi bem, você seguirá fazendo cinema na linha de Ezra, mas qual será sua próxima etapa?

R – Estou trabalhando em um projeto de filme intitulado Waiting for an Angel, que se desenvolve na Nigéria, em meados dos anos 80, durante o regime de Abacha. Este filme é uma ocasião para revisar as razões que me obrigaram a abandonar a Nigéria…

P – Você parece um autor bastante introspectivo.

R - Creio que tudo o que fazemos começa no espírito. O demais é a exteriorização dos pensamentos íntimos e por isso sempre volto a eles, aos pensamentos sobre o que está mal no mundo, a hipocrisia, a corrupção; e tento materializar meus pensamentos escrevendo. Voltando a Waiting for an Angel, é a história de um jovem escritor que tenta publicar seu livro. O filme fala da arte, de como se converte em um artista e como se refugia em si mesmo sob um regime totalitário. E quando tem que escolher, deve comprometer-se ou encerrar-se em seu mundo?

P – Para você, é óbvio que é preciso comprometimento…

R – Quando percebemos o mundo como ele é, não há outra opção. O mundo é um lugar terrível, uma fonte de decepções, onde as civilizações ocidentais afundam porque não se constroem sobre valores autênticos, mas, sim, sobre a corrupção, a tirania contra as demais raças, em relação às quais se proclamam superiores. Simplesmente porque colocaram os outros de joelhos através da escravidão, do colonialismo... O único fator que permite que a civilização ocidental sobreviva é a tirania. Com a Índia e a China, as coisas estão mudando. Estamos chegando ao final dessa civilização que, finalmente, tem que assumir o que fez durante os cinco últimos séculos, que não são nada no tempo e não justificam tanta arrogância. Fala-se muito do século das luzes, mas que classe de civilização ilustrada tolera o racismo? Também se fala muito “de igualdade, de fraternidade”… mas as pessoas nem sequer conhecem o significado dessas palavras. São apenas belas palavras que não refletem a realidade do mundo, nem da sociedade francesa. Os filósofos são covardes incapazes de dizer a verdade. Existe uma espécie de ilusionismo, uma ruptura entre as palavras e a realidade.

P – O que opina sobre o futuro do cinema africano, que narra diferentes realidades no oeste, norte ou sul do continente?

R – Penso que daqui a uma dezena de anos as coisas mudarão. O cinema africano vai mais além do próprio continente. A África já não é unicamente um lugar geográfico, mas um estado de ânimo guiado pela diáspora. Para mim, o cinema africano deveria estender-se ao Brasil, Cuba, América, a todos os lugares onde vivem os negros. Este cinema está chamado a ser um dos mais ricos do mundo porque bebe de numerosas culturas. Na Nigéria, apenas, o cinema que se faz no norte do país não é igual ao do sul. Finalmente, é um cinema que não quero definir, seria como matá-lo. Só desejo que chegue a ser o que merece. Querem enquadrar o cinema africano, mas, ao contrário, é necessário deixar que evolua, para que se transforme em um cinema complexo e importante, com histórias verdadeiras e sofisticadas.


Newton I. Aduaka

Ezra
com Mamoudu Turay Kamara, Mariame N’Diaye, Mamusu Kallon
Drama, duração de 1h42m



Fonte: http://www.afrik.com/article14457.html

Artigo original publicado em 4 de junho de 2008

Tradução redigida em português do

Sobre a autora


Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica  e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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MÃE AFRICA: 17/06/2008

 
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