HOME TLAXCALA
a rede de tradutores pela diversidade lingüística
MANIFESTO DE TLAXCALA  QUEM SOMOS ?  OS AMIGOS DE TLAXCALA   PESQUISAR 

AO SUL DA FRONTEIRA (América Latina e Caribe)
IMPÉRIO (Questões globais)
TERRA DE CANAà(Palestina, Israel, Líbano)
UMMA (Mundo árabe, Islã)
NO VENTRE DA BALEIA (Ativismo nas metrópoles imperialistas)
PAZ E GUERRA (USA, UE, OTAN)
MÃE AFRICA (Continente africano, Oceano índico)

ZONA DOS TUFÕES  (Ásia, Pacífico)
KOM K DE KALVELLIDO (Diário de um cartunista proletário)
TEMPESTADE CEREBRAL  (Cultura, Comunicação)
OS INCLASSIFICADOS 
CRÔNICAS TLAXCALTECAS 
O FICHÁRIO DE TLAXCALA  (Glossários, dicionários, fichários)
BIBLIOTECA DE AUTORES 
GALERIA 
OS ARQUIVOS DE TLAXCALA  

18/10/2017
Español Français English Deutsch Português Italiano Català
عربي Svenska فارسی Ελληνικά русски TAMAZIGHT OTHER LANGUAGES
 

Lutas


AUTOR:  Philip GOUREVITCH

Traduzido por  Sylvia Bojunga


À primeira vista, a fotografia exibida nos noticiários do mundo todo – a imagem de um homem queimando na África do Sul, com o pescoço envolto por um pneu de borracha encharcado de gasolina e depois incendiado – parecia uma relíquia dos dias de apartheid. Naquela época isso era bastante comum: tratava-se da forma como os defensores do revolucionário Congresso Nacional Africano [CNA, em português, e ANC por sua sigla em inglês, African National Congress, é o partido majoritário sul-africano desde 1994 – N.dT.] demonstravam o que seria feito dos informantes que traíssem sua luta pelo governo da maioria.

Esta luta foi finalmente vencida nas urnas há quatorze anos, mas a fotografia do homem em chamas foi tirada no mês passado, quando multidões sul-africanas invadiram violentamente distritos e favelas do país à caça de estrangeiros. Os jovens que estavam no centro dessas turbas carregavam armas de todo o tipo, desde martelos e chicotes até facões e revólveres, e não se detinham facilmente. Mesmo quando o presidente Thabo Mbeki, que permaneceu em silêncio durante os primeiros dez dias dos pogroms, chamou o Exército, a violência continuou e, mais uma vez, as fotografias dos confrontos lembraram as favelas dos bairros de outrora: atiradores de elite uniformizados disparando contra a multidão, ainda que com balas de borracha.

Cerca de cinco milhões dos 50 milhões de pessoas que vivem na África do Sul são migrantes de algum outro lugar do continente – Malauí, Nigéria, Congo, Moçambique, Sudão, Somália, Ruanda e Zimbabue. Eles vieram nos anos desde o apartheid, buscando refúgio político, ou oportunidade econômica, ou ambos, e sua presença poderia ser vista como uma medida do sucesso da África do Sul: a nação que um dia produziu gente procurando asilo havia se tornado um lugar de asilo para outros. Mas o banimento do governo de supremacia branca não trouxe o fim das divisões e desigualdades na África do Sul; os termos foram meramente reconfigurados.

Em lugar da violência política, a nação foi tomada por um dos mais elevados índices de crimes violentos do mundo. A maior parte das vítimas, assim como a maioria dos executores, pertence à vasta classe baixa negra. O desemprego crescente (23 por cento no país, e duas ou três vezes isso nos distritos) e o aumento nos preços dos alimentos e combustíveis levaram ao desespero crescente aqueles cronicamente excluídos das promessas de uma nova África do Sul. Os tablóides da imprensa e os demagogos políticos livremente culpam os estrangeiros pela situação social, e nas últimas semanas de maio mais de 50 deles (assim como diversos sul-africanos erradamente tomados como estrangeiros) foram mortos pelas hordas, enquanto mais de 30 mil foram expulsos de suas casas, destituídos de suas posses, e deixados amontoar-se nos acampamentos improvisados em igrejas e delegacias policiais, ou fugir em direção às fronteiras.

O homem da foto agora icônica era moçambicano; milhares de seus compatriotas atiraram-se de volta para casa, e o governo de Moçambique declarou estado de emergência em suas fronteiras. A grande massa de estrangeiros na África do Sul, entretanto, é do Zimbabue, e para eles – cerca de três milhões de pessoas, ou um quarto da população do país – a repatriação não é uma opção. Eles haviam fugido da incessante escalada da fome, da degradação e da violência da deposição do presidente Robert Mugabe. De fato, mesmo sendo caçados nas ruas da África do Sul, mais compatriotas arriscam suas vidas para escapar do Zimbabue e juntar-se a eles. Em março passado, Mugabe, depois de três décadas no poder, não conseguiu se reeleger – desta vez, ele falhou em fraudar suficientemente a votação – e, nos meses seguintes, na preparação para uma votação final, no dia 27 de junho, liberou seus soldados e milícias para conduzir uma campanha de terror sistemático contra os apoiadores de seu rival, Morgan Tsvangirai.

No ano passado, depois que os torturadores de Mugabe bateram em Tsvangirai quase até a morte, líderes regionais indicaram Mbeki para mediar a crise no Zimbabue. Mas Mbeki não quer fazer qualquer esforço para lidar com Mugabe. Ao contrário, demonstrou uma sinistra solidariedade para com seu companheiro, ex-combatente da luta pela libertação. Com persistente irrealismo, ele foi longe a ponto de negar que o Zimbabue esteja em crise, e recusou-se a estender o status formal aos refugiados, bem como as proteções decorrentes disso, a milhões de cidadãos em seu país, temendo insultar Mugabe.

Mbeki é um presidente incapaz, que deverá sair do poder no próximo ano, e perdeu o controle do aparato do partido ANC para seu principal rival, Jacob Zuma. Mas seu afago dirigido a Mugabe tornou-o cúmplice na devastação do Zimbabue. Então talvez haja alguma justiça no fato de que a crise no Zimbabue, que ele nega, ameaça tornar-se a crise definitiva de sua presidência. Apesar de tudo, o recente massacre na África do Sul serve somente a Mugabe, criando desordem enquanto ele sangra o país na etapa final da eleição, com previsões de carnificina ainda maior pairando sobre os resultados.

Não é óbvio que influência há sobre Mugabe. Provocação é a sua marca. Ele adora dizer ao mundo: “Vão para o inferno”. Mas não há razão para o mundo tolerar sua vontade de continuar com seus crimes sem ser ouvido e visto. Em abril, estivadores sul-africanos recusaram-se a descarregar uma remessa de 77 toneladas de foguetes, morteiros e outras munições da China destinadas ao Zimbabue – uma carga que faz lembrar as entregas para a Ruanda antes do genocídio de 1994. E, em deliberado contraste com a condescendente ausência de Mbeki, o embaixador norte-americano no Zimbabue, James McGee, tem feito sentir sua presença, liderando seus colegas da comunidade diplomática nas áreas rurais para investigar e relatar a extensão da tortura.

Em uma excursão recente, o diplomata coletou testemunhos, livros de anotações e fotografias que documentam como os capangas de Mugabe espoliam suas vítimas e quebram seus ossos. McGee ofereceu as provas aos representantes de Mbeki; eles recusaram-se a encontrar com ele, e Mugabe o ameaçou de expulsão. Ainda assim, em uma época em que o prestígio internacional americano como árbitro de justiça política carrega a mancha de Abu Ghraib, é comovente ver um de nossos diplomatas operar como se nunca tivesse ouvido falar que afogamento e outras formas de tortura agora são política de seu país.

Observar as entrelaçadas agonias da África do Sul e do Zimbabue, hoje, é ver o que Frantz Fanon queria dizer quando escreveu, em Les damnés de la terre (Os condenados da Terra), que “a última batalha dos colonizados contra o colonizador será, com freqüência, a luta dos colonizados uns contra os outros”. Mbeki e Mugabe pertencem a uma geração de lutadores da liberdade que parecem incapazes de ver o mundo através de qualquer lente além daquela da guerra anticolonial, e que invocam sua boa fé revolucionária como imunidade contra toda a crítica política e todos os desafios. Seu tempo já passou. A melhor esperança para ambos os países agora é que seja permitido aos eleitores do Zimbabue mostrar sua coragem no dia 27 de junho e libertarem-se.



Fonte: The New Yorker

Artigo original publicado em 9 de junho de 2008

Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Sylvia Bojunga é editora de ViaPolítica e amiga de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

URL deste artigo em Tlaxcala:
http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=5339&lg=po


MÃE AFRICA: 17/06/2008

 
 IMPRIMIR IMPRIMIR 

 ENVIAR ESTA PÁGINA ENVIAR ESTA PÁGINA

 
VOLVERVOLVER 

 tlaxcala@tlaxcala.es

HORA DE PARÍSI  15:11