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22/10/2017
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A barbárie da ofensiva militar de 7 de Junho através do testemunho de uma vítima

Marrocos : Testemunho de Maryam Aout Mouhine, violada por polícias em Sidi Ifni


AUTOR:  Mustapha HIRANE مصطفى حيران

Traduzido por  Alexandre Leite


No sábado 7 de Junho de 2008, na pequena cidade de Sidi Ifni, no extremo sul marroquino, 3000 polícias atacaram selvaticamente várias centenas de jovens desempregados diplomados que se manifestavam sentados e que bloqueavam há 8 dias o acesso ao porto, para reclamar empregos e medidas para tirar a sua cidade da marginalização económica. Esta operação deveu-se nomeadamente ao pedido de proprietários de empresas espanholas cujos camiões frigoríficos carregados de peixes eram bloqueados no porto. Por ter denunciado as violências policiais graves contra os manifestantes e contra a população dos bairros circundantes, um responsável do Centro marroquino dos direitos do homem, Brahim Sbaâ Ellil, foi condenado a seis meses de prisão e o director do escritório regional da Al Jazeera foi condenado a uma multa. A Al Jazeera não pode doravante fazer o seu trabalho em Marrocos.
O testemunho que iremos ler a seguir é um desmentido irrefutável às afirmações dos que juram com a mão no peito que, a 7 de Junho de 2008, os polícias marroquinos não violaram ninguém em Sidi Ifni. É preciso saudar a coragem de Mustapha Hirane, o jornalista que recolheu este testemunho. Ele próprio foi vítima de brutalidades policiais por parte das Forças Auxiliares  quando cobria uma manifestação licenciados desempregados em frente ao Parlamente de Rabat em Maio de 2007.-Tlaxcala

« 


Eu preparava-me para sair para Sidi Ifni uma semana depois dos acontecimentos sangrentos de 7 de Junho. As pessoas de lá, estavam presas entre o mar, a montanha e o jugo do Makhzen e a tentarem recuperar o seu fôlego. Elas tentavam compreender o que se tinha passado para o poderem digerir. A missão que me tinha sido claramente incumbida pela comissão da redacção do nosso hebdomadário Al Michaal (ATocha) especificava que eu deveria ir recolher testemunhos das jovens vítimas de atentado ao seu pudor. Não era uma tarefa fácil. É difícil convencer jovens educadas num meio tradicional a fazerem revelações sobre as atrocidades exercidas por animais predadores do aparelho executivo do novo Makhzen. Eu tentei inspirar as vítimas, convencê-las a desvendar tudo, quaisquer que tenham sido os horrores. Para que o que se passou não se possa repetir ou, pelo menos, para que o Makhzen e os seus esbirros pensem duas vezes antes de saquear novamente os lugares privados e a intimidade das pessoas e violar as mulheres.

As vítimas aceitaram enfrentar este desafio. Devo dizer francamente que estas mulheres são as bravas guardiãs da cidadela de honra das mulheres marroquinas, numa altura em que as outras cidadelas se resignam. O testemunho “grave” (como dizemos nós, “ferida grave”) que vocês vão ler emana de uma jovem baamraniana de Sidi Ifni. O seu nome: Maryam Aout Mouhine (fotografias). Ela apareceu voluntariamente de entre um grupo de mulheres e jovens para informar a opinião pública nacional sobre as atrocidades e a baixeza do novo Makhzen e dos seus esbirros. O testemunho de Maryam é apenas o primeiro. Outros se seguirão na próxima semana.

O oficial da polícia: “Peguem nesta filha da p. e metam-na onde puderem”

« Eu saí na manhã de sábado dia 7 de Junho para fazer compras. Dei de caras com um agente da polícia que começou a insultar-me sem razão nenhuma e que me disse: “Vai-te f., filha da p. » Eu respondi: “Cuidado com essa linguagem.” Ele tornou a insultar-me. Nesse momento, aproximou-se um outro agente e perguntou-me qual era o problema entre o seu colega e eu. E quando eu lhe expliquei, pensando que ele iria resolver a situação, ele aproveitou para me agarrar e levar ao seu chefe, um oficial. Este último também perguntou qual era o problema. Eu expliquei outra vez o que se tinha passado e todos os insultos proferidos contra mim. E ele disse ao polícia que me tinha trazido: «Peguem nesta filha da p. e metam-na onde puderem.»

Eles levaram-me para perto do colégio Moulay Abdallah, onde pude ver o que estavam a fazer: tinham uma jovem caída no chão e pontapeavam-na por todo o lado, sobretudo na cara. Depois chegou a minha vez de receber a minha dose de pontapés, e podem ver as minhas marcas: estou coberta de negras e nem me posso sentar. Em dada altura, chegou um outro polícia, encapuzado. Agarrou-me, atirou-me contra o muro do colégio e começou a bater-me, sobretudo no fundo das costas, e quando eu deixei de gritar porque já não sentia o meu corpo, que parecia um cadáver, ele começou a dar-me pancadas na cabeça. Eu tentei proteger a cara dos golpes dados à toa mas senti o meu nariz a partir. Vieram outros polícias juntar-se à matilha, seguraram-me nos braços para permitir que o colega encapuzado me pudesse bater à vontade, sob uma incessante chuva de insultos vindos de toda a matilha. “Vai-te foder, puta, nós vamos foder a tua mãe. Filha dum panasca, filha da puta!”

Isto tudo passou-se em frente ao colégio Moulay Abdallah. Depois eles levaram-me para a esquadra. Ao sair da viatura fui brutalizada, esbofeteada, apanhei murros na cabeça. Já não me aguentava em pé. Eles arrastaram-me até ao interior da esquadra. Um deles quase me pisou os óculos que me tinham caído. Ia fazê-lo se eu não explicasse que tinha vendido uma ovelha por 500 dirhams (=50 euros) para os poder pagar. Ele então pegou neles e meteu-os no seu bolso. Foi então que dois polícias, que eu poderia reconhecer no meio de mil, um deles chama-se Badr, segundo os jovens da cidade que o conhecem e lhe deram boleia mais tarde, meteram-me numa divisão e obrigaram-me a despir. Eu recusei.

Perante a minha recusa, eles recomeçaram a bater-me, rasgando a minha roupa aos pedaços. Todas as jovens detidas na esquadra tiveram a mesma sorte que eu. As que negarem estão a mentir, com medo de perderem a sua honra, numa cidade pequena como Ifni. Eu vi mulheres e homens que conheço a serem espancados à frente dos seus maridos ou das suas esposas. Tiraram a roupa a outras mulheres em frente aos seus maridos. Com o que passei, desejei encontrar-me face a face com um polícia sozinho, e tenho a certeza que lhe teria batido. Mas infelizmente, eles eram como gafanhotos em cima de um cadáver, não o largam enquanto não o limparem a fundo.

“Ele meteu um bastão entre  as minhas pernas e gritou: ‘Vamos, mexe-te, filha da p.’ ”

Depois de me terem despido totalmente, um desses polícias meteu-me um bastão entre as pernas e começou a beijar-me à força e de cada vez que eu tentava recusar, ele batia-me na cara ou na cabeça. Durante esse tempo, os outros cheiravam os restos da minha roupa e acariciavam-me os seios. Sentia-me muito mal, mas apesar de tudo, resisti (...)
Outras mulheres confessaram-me que foram vítimas de violação colectiva no interior da esquadra.
Vinha cada um na sua vez  cheirar e beijar-me os seios à força. Os meus gestos de resistência provocavam sempre insultos e pancada. Eu disse a um polícia que me estava a beijar e a agarrar: 'Afasta-te de mim, pelo amor de Deus'. A dada altura, um dos polícias, que já não suportava o que me estavam a fazer passar, disse-me: 'Pega nas tuas roupas e veste-te. Perdoa-me.’ E levou-me para outra cela. No preciso momento em que eu entrava nessa cela, ele começou a insultar e a denegrir-me: 'Anda, puta, filha dum panasca!', para ficar bem visto perante os seus superiores que iam entrar na cela. Ele pegou nas minhas roupas e atirou-as para a outra ponta da cela.

Nunca tinha visto tais cenas, nem mesmo no cinema.

Havia muitos jovens nus. Ao lado de cada jovem estavam garrafas vazias. Quando saí da esquadra, perguntei-lhes porque estavam lá essas garrafas e eles disseram-me que os obrigaram a sentarem-se nelas, mas que não o podiam dizer em público por vergonha. A maioria desses jovens vive no bairro de Colomina.

Neste ambiente, as pancadas eram dadas em todos os corpos nus, em todas as partes do corpo, sobretudo nas nádegas e nos órgãos genitais e ai daquele que resistisse. Foram golpeados até com matracas, a pontapé, na cara, em todo o lado, até caírem como um animal degolado.

Quando eu disse ‘Non’ em francês a um dos polícias que me queria violar, ele ficou louco e bateu-me de forma histérica até eu tombar por terra. Então nomearam-me a 'Non'. Eles diziam 'Anda cá, tu, a Non', enquanto me batiam, claro. Nessa altura, eu vi um dos seus superiores que andava como um pavão a olhar para nós, todos nus como recém-nascidos, com um sorriso de desprezo. Um jovem disse-lhe: 'Por favor, arranja-me um telefone, para que eu possa ligar ao caid* em Agadir, foi ele que me mandou aqui em trabalho, eu não estava aqui para me manifestar, vocês podem verificar isso, a minha viatura está lá fora, tem matrícula de Agadir.' O graduado respondeu-lhe: 'Nós temos ordens do rei para fazer o que estamos a fazer e tu, tu queres falar com o caid? Será que ele fica acima do rei neste país?'

Eu lembro-me bem da cara deste oficial e posso reconhecê-lo no meio de mil.

A dada altura, um polícia levou-me toda nua, atirou-me ao chão, pôs o seu pé no meu pescoço e disse: 'Se tu te mexes, puta, eu mato a tua mãe' (...) e depois bateu-me nas nádegas com a mão e depois com a sua matraca, rindo às gargalhadas.

Todos os polícias que nos trataram assim trabalham na esquadra de Sidi Ifni. Eu posso reconhecê-los porque eu cruzo-me com eles todos os dias, andando no bairro de Colomina.

« Olha puta, como é grande o caralho do Makhzen*** ! »

Tiraram-me da segunda cela, puseram-me uma venda nos olhos e levaram-me para o andar superior. Chegando não sei bem onde, fui interrogada sobre o meu estado civil – nome do pai, da mãe, etc. - uma catrefada de perguntas. Por exemplo, perguntaram-me sobre Al Wahdani****, que eu não conhecia – descobri quem era mais tarde, ao ler os jornais. Eles também me perguntaram se eu conhecia Si Barra*****. Disse-lhes que não conhecia. Questionaram se fazia parte de alguma associação, eu respondi que não. Perguntaram-me as minhas opiniões, se eu estava satisfeita com a situação actual de Sidi Ifni. Eu respondi com sinceridade. Se eu fizesse parte de alguma associação, eu tinha-lhes dito, para me deixarem em paz.

Uma vez terminado o interrogatório – durante o qual, excepcionalmente, não me bateram –, alguém me agarrou pelo braço e tirou-me dali. Eu ainda não via nada. Ao descer as escadas, ouvi alguém, acima de mim, a dizer-me: 'Tira a venda'. Eu reconheci a voz do graduado que andava como um pavão.

Tirei a venda, e de seguida agarrei-me ao braço do polícia, por reflexo de medo. O oficial comentou logo: 'Larga o rapaz, ou será que houve faísca entre vocês?' Partindo-se a rir histericamente com os seus colegas. Nesse momento, o polícia que me tinha inicialmente tirado a roupa disse-me: 'Anda lá, veste-te e vai para casa, espécie de puta!

Ouvi insultos que nunca tinha ouvido. O que eu passei nunca me tinha acontecido na vida. (...)

No momento de sair, pedi ao polícia que me insultava para me devolver os meus óculos******. Ele respondeu-me: 'E onde é que eles estão, filha da puta', e empurrou-me violentamente para fora da esquadra. Uma vez cá fora, deparei-me com um grupo de polícias que gritaram em coro: 'Ó puta! Ó puta!' e foi então que um deles me agarrou pelo ombro e me abanou e disse: 'Viste, espécie de puta? É grande a piça do Makhzen, hã?'

 

Notas da tradutora em francés

* A hierarquia administrativa do Makhzen** marroquino compõe-se da seguinte forma:
wali (governador da região)
amil (prefeito da província)
pacha (sub-prefeito da cidade)
super-caíd (sub-prefeito rural)
caíd (chefe de distrito rural)
khalifa (sub-caíd rural)
cheikh (sub-sub-chefe urbano ou rural)
moquadem (chefe de bairro urbano ou rural)
chaouch
(o vigilante, o olho dos seus mestres e que recolhe os subornos: encontra-se em todo o lado, na cidade, no campo, no mar, em terra, no ar... Apelidado no meio rural de "chambaite" [guarda-campestre]))

** Makhzen: esta palavra significava inicialmente entreposto (do verbo khazzan, entreposer) e que deu origem à palavra francesa magasin, à espanhola almacén, à italiana magazzino e à portuguesa armazém, que designa em Marrocos o conjunto do poder tentacular do Estado, e que possui tentáculos até nos partidos ditos da oposição. Existe um velho debate para saber se o rei faz parte do Makhzen ou não.
Por outro lado, qualquer um, mesmo não sendo funcionário, pode fazer parte.

*** « Zob el makhzen touil », e « Yedd el makhzen touila »(O braço do makhzen é longo » : expressões correntes em Marrocos.

**** Mohamed Al Wahdani: preso político depois do sábado negro de 7 de Junho.

***** Brahim Barra: responsável do ATTAC de Sidi Ifni, detido depois do sábado negro

****** Numa entrevista posterior à Al Jazeera, Maryam referiu que os óculos lhe tinham sido entregues.


Fonte: Al Michaal (A Tocha)


Artigo original publicado em Junho de 2008

Este artigo é para português de

Sobre o autor

Alexandre Leite é editor de  http://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt  e  membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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MÃE AFRICA: 18/07/2008

 
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