HOME TLAXCALA
a rede de tradutores pela diversidade lingüística
MANIFESTO DE TLAXCALA  QUEM SOMOS ?  OS AMIGOS DE TLAXCALA   PESQUISAR 

AO SUL DA FRONTEIRA (América Latina e Caribe)
IMPÉRIO (Questões globais)
TERRA DE CANAà(Palestina, Israel, Líbano)
UMMA (Mundo árabe, Islã)
NO VENTRE DA BALEIA (Ativismo nas metrópoles imperialistas)
PAZ E GUERRA (USA, UE, OTAN)
MÃE AFRICA (Continente africano, Oceano índico)

ZONA DOS TUFÕES  (Ásia, Pacífico)
KOM K DE KALVELLIDO (Diário de um cartunista proletário)
TEMPESTADE CEREBRAL  (Cultura, Comunicação)
OS INCLASSIFICADOS 
CRÔNICAS TLAXCALTECAS 
O FICHÁRIO DE TLAXCALA  (Glossários, dicionários, fichários)
BIBLIOTECA DE AUTORES 
GALERIA 
OS ARQUIVOS DE TLAXCALA  

14/12/2017
Español Français English Deutsch Português Italiano Català
عربي Svenska فارسی Ελληνικά русски TAMAZIGHT OTHER LANGUAGES
 
No longínquo Afeganistão...

A França profunda descobre que está em guerra


AUTOR:  Fausto GIUDICE

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


No dia 20 de agosto passado, em plenas férias, enquanto o bom povo da França passeava despreocupado entre praias repletas e telas de televisão para acompanhar as proezas dos atletas em Pequim, fazendo o possível para esquecer o trauma do inadiável regresso à rotina de “trabalhar mais e ganhar menos”, a notícia explodiu como trovão em céu sereno. Dez jovens e valorosos soldados franceses acabavam de morrer no longínquo Afeganistão, em uma emboscada montada pelos terríveis talibãs, a 50 km de Cabul, o que elevou para 22 o número de militares franceses mortos desde 2002, o que é pouco em relação aos 100 britânicos que perderam a vida, e menos ainda se comparados aos milhares de afegãos assassinados. E, quando digo afegãos, refiro-me a homens armados, homens desarmados, mulheres, crianças e idosos.

De repente, o bom povo da França descobriu que seu exército está envolvido na guerra do Afeganistão. Seis anos se passaram até que os franceses se dessem conta de que estavam fisicamente comprometidos em uma guerra.

Uma guerra mundial? Não. Uma guerra local? Tampouco. Trata-se de uma “guerra entre dois mundos”. Dois mundos que se enfrentam nas montanhas e nas planícies do Afeganistão: de um lado, os bons, a “coalizão”, que reúne 70.000 soldados de uns 40 países. Oficialmente não estão lá para fazer a guerra, mas, sim, a paz, para reconstruir o país e, em especial, para libertar as mulheres, essas pobres afegãs encerradas em seus véus como em jaulas. Do outro lado, os “maus”, os barbudos, os “terroristas”, os talibãs, al-Qaeda. De modo que esses soldados estão lá também para lutar contra o terrorismo, isso que George Bush chama de “a guerra mundial contra o terror”. Exceto que, segundo parece, os “terroristas” afegãos gozam do apoio de uma grande parte da população.

Durante os seis anos que transcorreram desde o início do conflito, a opinião pública francesa não se importou em nada com essa guerra, que, oficialmente, não existe. Nem a esquerda suave nem a extrema esquerda organizaram uma só manifestação. Nada, nada, nada. Silêncio no rádio e consenso total. Não foi diferente na Espanha ou na Itália, onde a esquerda institucional retirou suas tropas do Iraque para melhor se envolver no Afeganistão. Mais agitação houve na Alemanha, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e no Canadá, embora sem grande impacto sobre os acontecimentos: “Aqui estou e aqui fico”, é a palavra de ordem das forças de coalizão, batizadas com as siglas ISAF.

De fato, os aliados dos EUA, o invasor, encarregam-se da tarefa de apoio logístico e civil, a “serviço” dos american boys que, supostamente, fazem o trabalho sujo, quer dizer, os crimes de guerra e os bombardeios contra a população civil com urânio empobrecido. Por sua parte, os franceses e os europeus tratam de manter as mãos limpas, cavam alguns poços e ajudam algumas mulheres no parto.

Mas, o que os soldados franceses faziam nessa enrascada?, pergunta de repente o João Ninguém, típico cidadão da República Francesa. Um “trabalho indispensável”, responde o presidente, enquanto seu segretario da Guerra, Jean-Marie Bockel, apela à “união nacional” e adverte que esta não é hora para críticas.

É que parece que tanto a esquerda suave como a extrema esquerda repentinamente despertaram: o Partido Comunista Francês e a Liga Comunista Revolucionária exigem a retirada das tropas, enquanto o Partido Socialista se contenta em dizer que “a missão dos soldados franceses no Afeganistão deveria ser reavaliada”. Da outra margem, a Frente Nacional, de Jean-Marie Le Pen, é a mais virulenta na denúncia desta guerra que esconde sua condição de guerra.

Em 21 de agosto de 1968, há exatamente 40 anos, os tanques do Pacto de Varsóvia entraram em Praga e acabaram com uma primavera demasiado breve. Os jovens checos de então escreveram o seguinte nas paredes da cidade: “Lenin, acorda, eles enlouqueceram”, e cantaram para os soldados soviéticos uma canção que acabavam de compor, cuja letra dizia: “Ivan, volta pra casa, Natacha te espera.”

Os resistentes afegãos, por sua vez, deveriam pichar sobre os muros dos barracões franceses em Cabul: “Jaurès, acorda, eles enlouqueceram”. Jean Jaurès foi o dirigente socialista francês que se atreveu a dizer NÃO à união sagrada para a guerra em 1914 e pagou com sua vida. Sim, Jean Jaurès, o mesmo a quem o candidato a presidente Sarkozy citou em seus discursos pré-eleitorais.

E, também, os resistentes afegãos poderiam cantar esta canção aos soldados franceses: “Kevin, volta pra casa, Jessica te espera” ¹.

¹ NdeT: Kevin e Jessica encontram-se entre os nomes mais utilizados pelas novas gerações de franceses. Kevin era o nome de um dos dez pára-quedistas mortos e  Jessica é o nome da noiva de João, o filho de Nicolas Sarkozy


Fonte: Basta - Journal de marche zapatiste e Tlaxcala

Artigo original publicado em 21 de Agosto de 2008


Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica e  membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

URL deste artigo em Tlaxcala:
http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=5746&lg=po

  


CRÔNICAS TLAXCALTECAS: 23/08/2008

 
 IMPRIMIR IMPRIMIR 

 ENVIAR ESTA PÁGINA ENVIAR ESTA PÁGINA

 
VOLVERVOLVER 

 tlaxcala@tlaxcala.es

HORA DE PARÍSI  15:55