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17/12/2017
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Regresso de África


AUTOR:  Hermann BELLINGHAUSEN

Traduzido por  Rita Custódio


Diz-se “África” com demasiada ligeireza. Para o Ocidente significa o espaço mítico da aventura e da desgraça. O lugar dos seus escravos, dos esfomeados, dos desterrados, dos massacrados, dos “selvagens” e incompreensíveis povos negros.

O seu norte arábico é menos “africano” no imaginário europeu. E a América “negra”, de “terceira raiz”, aparece como uma espécie de África que foi salva de o ser, mesmo em Detroit ou nas favelas do Rio de Janeiro. Tão desconhecido como a Lua, é dos cinco continentes o que tem mais lugares comuns: obviedades infundadas e mentiras profundas.

O seu guia literário de forasteiros continua a ser O Coração das Trevas, de Joseph Conrad [1], não só porque é uma grande obra, mas também porque transmite os medos, as crueldades e a culpa dos olhares do Ocidente sobre esse espaço saqueado e condenado uma e outra vez, sem que o saqueio nem a condena acabem de uma vez.

O deserto continua a crescer. Os seus povoadores fogem para a Europa que os colonizou, e esta declara-lhes uma nova guerra (anti-migratória) e levanta muros legais e campos de confinamento.

Dois livros de cariz muito distinto adentram-se na África dos pesadelos ocidentais modernos, mas desde o seu interior e dão-lhe sentido. Meio século depois das independências nacionais, o mal da África subsariana é que não pertence aos que a povoam, cuja vidas não pertencem nem a eles nem a ninguém. Nasce-se facilmente e morre-se facilmente. Guerra, doença, fome, sede.

Ébano, de Ryszard Kapuscinski e Mara and Dann, de Doris Lessing, são duas obras monumentais [2].

A primeira, uma ponderada crónica do passado meio século de revoluções e guerras civis, o testemunho “duro” de um repórter improvavelmente polaco (como Conrad?), que viajou pelo continente durante várias décadas prefigurando o que hoje seria Robert Fisk para o mundo árabe.

Foi menos erudito, mas teve maior densidade literária. Por outro lado, a novela de Lessing é ficção no sentido mais extremo. Passa-se num futuro confuso sem contacto com o nosso presente, fracturado e distante, nunca sabemos por quantos anos ou séculos.

Anterior à sida, ao ébola, aos transgénicos e ao aquecimento global, Ébano já retrata o páramo pós-europeu, a luta quotidiana e brutal por um pão, um copo de água, um pouco de sombra, um dia a mais com vida.

Mara and Dann passa-se depois de todos esses desastres, quando a Europa, coberta de gelo, já não existe nem na memória. Resta o sul, um imenso deserto onde as pessoas de todas as raças (outras raças, as de depois do fim do mundo) continuam a tentar viver um dia mais e alcançar o norte numa peregrinação sem fim.

Os irmãos Mara and Dann fogem do ocaso do seu povo e da sua casta no sul de “Ífrik”. Põem a vontade por cima do sofrimento através de penúrias terríveis e de frágeis momentos de bonança. Uma bildungsroman [3] submetida à pior intempérie on the road.

Kapuscinski fez reportagens no continente durante mais de 30 anos. Lessing, nascida no Irão, viveu no Zimbabwe nos primeiros 30 anos da sua vida, e traz a África cravada na consciência, como todo o britânico de bem.

Ele descreve um mundo esquecido pelo mundo. Ela imagina um que esqueceu o que hoje sabe a civilização: sem tecnologia nem história, sem nenhuma chave científica. Não se trata de autores africanos negros (tipo Ben Okri ou Amos Toutola), nem sequer de brancos (Nadine Gordimer, André Brink). Kapuscinski e Lessing apenas deixaram lá o seu coração.

Contemplam essa “humanidade sobrada” que hoje sobrepovoa o planeta de slums descrito por Mike Davis. Por exemplo, Kinshasa, capital do Congo. Nove milhões de habitantes, 95 por cento sem salário, com uma renda média anual de 100 dólares. Não há carros, nem dinheiro. Duas terças partes das pessoas estão desnutridas; uma em cada cinco, é HIV positiva. Não há serviços de saúde. E as crianças converteram-se em bruxas para sobreviver. Tudo, no meio de permanentes guerras civis e com os vizinhos, sob o comando de um governo de ladrões e assassinos. “Um país naturalmente rico, artificialmente empobrecido” (Planet of Slums, Verso, 2006).

Assim, Ébano e Mara and Dann, tão distintos em tudo, deixam a inquietante sensação de ser o mesmo livro por outros meios. Advertências contra um certo futuro, para além da África. 
 

NOTAS:

[1] O Coração das Trevas foi publicado em Portugal pela Editorial Estampa (1983), com tradução de Aníbal Fernandes, e no Brasil pela Ediouro (1996), com tradução de Marcos Santarrita.

[2] Ébano foi publicado em Portugal pela Campo das Letras (2001), com tradução de Maria Joana Guimarães, e no Brasil pela Companhia das Letras (2002), com tradução de Tomasz Barcinski. Mara and Dann (1999. HarperFlamingo) ainda não tem tradução portuguesa mas dispõe de tradução espanhola pela Ediciones B (2005), com tradução de María José Díez e Diego Friera.

[3] N.T. O termo bildungsroman (romance de aprendizagem ou formação) designa o tipo de romance em que é exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade. (in Wikipédia) 


Fonte: http://www.jornada.unam.mx/2008/09/01/index.php?section=opinion&article=a13a1cul

Artigo original publicado a 1 de Septembro de 2008 

Este artigo é para português de

Sobre o autor

Rita Custódio é colaboradora de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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MÃE AFRICA: 04/09/2008

 
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