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13/12/2017
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E o Paquistão também


AUTOR:  Juan GELMAN

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


Em 3 de setembro, helicópteros e forças terrestres dos EUA cruzaram a fronteira afegã e atacaram o povoado de Jalal Khei, no sul do Paquistão, com um saldo de 20 civis mortos, entre eles seis crianças, um menino de dois anos e uma menina de três. Este fato provocou reações oficiais em Islamabad: Parvez Kayani, chefe do Estado-maior do exército paquistanês, anunciou que já não mais se permitiriam operações de tropas estrangeiras em território nacional. O “já” do general se explica: há algum tempo que comandos especiais dos EUA incursionam clandestinamente no Paquistão, dando-se ao luxo de provocar “danos colaterais”. E não escutaram Kayani.

Na terça-feira passada, efetivos estadounidenses tentaram repetir a mesma ação, no mesmo lugar, mas encontraram uma surpresa: tropas paquistanesas abriram fogo contra os helicópteros, obrigando-os a se retirar para o Afeganistão. Centenas de pessoas armadas haviam se posicionado na fronteira, decididas a combater os norte-americanos. Esta nova estratégia do Pentágono foi batizada de “sem luvas”, isto é, chega de delicadeza e, em seu lugar, o punho de ferro contra a etnia pasthún, habitante da área, e que mantém um código de honra que inclui o dever de oferecer hospitalidade àqueles que a solicitam. Por exemplo, os talibãs, que lá têm santuários, de onde partem para combater as forças da OTAN que ocupam o território afegão.

A situação é paradoxal. O Paquistão é o aliado mais firme da Casa Branca na região. Mas o Afeganistão obriga: lá, ultimamente, os invasores vão muito mal. É que há pashtunes em ambos os lados da fronteira artificial e esponjosa, sobretudo que a Grã-Bretanha colonial impôs, a chamada Linha Durand. O próprio Paquistão é uma invenção britânica, um Estado tampão entre a Índia e o Afeganistão, fabricado por Londres com território hindu, claro. Os talibãs movem-se como em sua própria casa de um lado a outro da Linha, mas a operação de 3 de setembro não estava destinada a aniquilá-los, e sim a atormentar a população civil que os acoberta. Eram três horas da madrugada e os habitantes de Jalal Khei estavam dormindo. Foram mortos com decisão e segurança.

O ataque provocou indignação: manifestantes paquistaneses, gritando palavras de ordem contra os EUA e a OTAN, bloquearam a rota principal entre o Paquistão e o Afeganistão com os cadáveres das vítimas. Por outro lado, Asif Ali Sardari – (a) Mister dez por cento –, flamante presidente do Paquistão e, em especial, viúvo de Benazir Bhutto, a líder do Partido do Povo Paquistanês, assassinada em dezembro de 2007, graças à cuja popularidade e seu trágico final ganhou as eleições, declarou ao Washington Post que ele estava com os EUA. Claro que sim. Fontes norte-americanas assinalaram que o operativo poderia ser o prólogo de una intervenção militar estadounidense mais dilatada, “um plano secreto que o secretário de Defesa Robert Gates propusera durante meses no âmbito do conselho de guerra que George W. Bush lidera” (The New York Times, 4-9-08). Parece evidente que uma operação desta natureza não poderia ser executada sem a autorização da Casa Branca. E não só: poderia bem ser um desejo republicano/democrata.

Barack Obama reiterou seu apoio aos ataques unilaterais dos EUA nas zonas do território paquistanês onde os talibãs têm suas bases, com o intuito de corrigir o fracassado rumo da falsa “guerra antiterrorista”. O candidato presidencial democrata conta com o forte apoio de setores do governo, que criticam a invasão do Iraque porque solapa os interesses dos EUA, e se transformou em instrumento político da estratégia de encaminhar os esforços de guerra ao Afeganistão e Paquistão, para melhor defender o projeto de controlar a Ásia Central e o subcontinente hindu. Isto é brincar com fogo.

Wajid Shamsul Hasan, um dos assessores mais próximos do presidente Zardari, questionou as missões de “ação direta” no Paquistão: “O que ganham com isso [os norte-americanos], além do rancor da população? Não mataram nem capturaram nenhum dirigente importante da Al Qaida, mas o dano colateral causou centenas de mortes (civis) e a reação se sente em todo o país” (The Sunday Times, 14/9/08). Mas o terrorismo da Al Qaida não é a prática dos talibãs que, como toda guerrilha, procura ocupar território até alcançar o poder. Moscou sofreu com isso na própria carne.

O Afeganistão é uma paisagem excepcional da História: não houve ocupação estrangeira que durasse, como souberam os soviéticos no século XX, os ingleses no XIX, e Alexandre Magno no século IV antes de Cristo. A luta dos talibãs contra os ocupantes do país devolveu-lhes novamente a legitimidade. Muito difícil de resolver a tiros.


Karachi, 23/09/2008: Estudantes do grupo Islami Jamiat-e-Tulaba (IJT) protestam contra o ataque de Jalal Khei, AFP/Getty Images


Fonte: La Bitácora de Gelman

Artigo original publicado em 18 de Setembro de 2008


Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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ZONA DOS TUFÕES : 25/09/2008

 
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