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22/10/2017
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Resposta a um inquisidor

Por que vivo nos EUA?


AUTOR:  Jorge MAJFUD

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


Baltimore Pike, PE, EUA – Em 2001, Oriana Fallaci escreveu seu célebre artigo “La Rabbia e l’Orgoglio”, onde não só fazia um ataque indiscriminado aos imigrantes do terceiro mundo na Europa e nos Estados Unidos, mas a todas as culturas que não eram a “cultura Ocidental”. Em 2002, publiquei, em alguns jornais, uma longa resposta sobre ao menos uns vinte pontos, que considerei como erros da autora. O ensaio chamou-se “El lento suicidio de Occidente”*, onde, longe de atacar o Ocidente e elogiar o Oriente, a idéia central radicava em prevenir o Ocidente contra um de seus maiores inimigos: o próprio Ocidente.

Graças a esse ensaio recebi ataques anônimos que vão desde as referências sobre meus antepassados – fator que explicaria meus argumentos – até as advertências dos donos do mundo sobre os perigos de discorrer por trilhos não oficiais.

Há poucos dias, um amigo me enviou por correio a crítica de um leitor, e me pediu que respondesse às suas observações. Em síntese, o leitor, assumindo-se como estadounidense, perguntava se realmente eu me sentia tão incômodo com nossa cultura e nossos valores (“our culture and values”), por que não ia viver nesses países que tanto admirava. Ao final acrescentava: “não importa se Majfud está certo sobre o Ocidente. Trata-se de coerência. O mínimo que se pode pedir a um intelectual é coerência”. 

A verdade é que admiro a filosofia grega dos séculos V e IV, a poesia de Omar Kayyam, a física de Albert Einstein, mas acredito ser desnecessário e talvez impossível ir viver na Grécia de Péricles, na antiga Pérsia ou na Alemanha nazista dos anos vinte. De fato, a maior parte dos intelectuais alemães que se exilaram nos Estados Unidos durante o nazismo não passaram a ser, por essa razão, acríticos complacentes da nova ordem – sem dúvida preferível se comparada com a que abandonavam – e continuaram coerentes com seu pensamento anterior: o poder não necessita defensores; tem suficientes aduladores.

É parte de um pensamento fascista confundir todo um país com a ideologia daqueles que dominam suas esferas de poder: se alguém critica a ideologia dominante X – muitas vezes articulada por intelectuais úteis ao poder militar e econômico do momento –, estaria atacando todo o país onde domina X, ergo alguém deve ir embora a viver em outro lado, e deixar X expandir-se livremente até o último rincão da consciência humana.

Está claro que esse leitor não terminou de ler o ensaio, premido por uma reação epidérmica, própria das primeiras etapas da nova cultura digital. Se mencionei que os holocaustos, as inquisições e a vasta prática da tortura também eram produtos bem ocidentais, não foi para demonstrar a inferioridade do Ocidente, mas, sim, pelo contrário, para exercitar um costume também ocidental, segundo o qual foi a crítica e não a adulação que nos preveniu algumas vezes contra nossos próprios defeitos. Entre estes, relacionemos a soberba e a pureza da ignorância, segundo a qual tudo foi inventado pela Europa ou pelos Estados Unidos há cem anos, desde o alfabeto fenício, os números arábicos, a teologia africana e hebraica, os fundamentos das ciências e o vasto legado das artes e do pensamento.

Esse tipo de pensamento existiu ao longo da história, mas, em determinados períodos, dominou a maioria de uma sociedade e, em algumas ocasiões, regeu as leis de um governo e de um Estado. No século XX se chamou fascismo, mas há exemplos anteriores, como o da Espanha do século XV e XVI. Apesar de que a península ibérica tinha uma das culturas mais antigas e mais ricas em diversidade cultural, racial, religiosa e lingüística, houve um movimento político que definiu qual era “nossa cultura” e decidiu que ser espanhol era ser católico, falar castelhano, ter a pele branca e o sangue livre da contaminação de mouros e judeus. Esse grande país sangrou por séculos tratando de superar a cultura do garrote ideológico e policial, até que, no século XX, o generalíssimo Francisco Franco resgatou o mito fascista: há uma só forma de ser espanhol, de ser homem, de falar, de pensar e de publicar, de merecer a vida ou de merecer pisar a terra limitada por alguns limites políticos, geralmente arbitrários.


Manuel L. Acosta, Arrancando as entranhas do monstro
Óleo sobre tela (100x80)

Esse exemplo de um dos países que mais quero sobre o planeta depois de meu próprio país é apenas um exemplo clássico. Não haveria espaço para recordar que essa mesma idéia fascista de unidade e pureza, por exclusão, provocou estragos por meio de todas as ditaduras de América Latina, como na África, no Oriente e em qualquer lugar do planeta, seja em que direção olhemos. Incluído, devo dizer, meu país de origem, o qual quero sem maiores motivos e sem justificar minhas emoções, afirmando que é o melhor país do mundo ou que lá estão as pessoas melhores e mais bonitas, o que, além de arbitrário, demonstra um atrasado e agudo nacionalismo, quando o país não é uma potência mundial, e um nacionalismo perigoso, quando o é.

Afortunadamente, nos Estados Unidos, vivem milhões de pessoas que não pensam como meu inquisidor. Milhões de pessoas não acreditam que este país heterogêneo, composto de muitos estados e de muitos outros grupos dissidentes do poder político, defina-se por uma única cultura e uns poucos valores únicos, imprecisamente definidos mas claramente declarados por alguns grupos fascistas, que nem sequer conhecem a história do país onde nasceram, mas se arrogam o direito de excluir da moral a todos aqueles que não caem dentro de seu estreito círculo mental. E nisso são tão coerentes como uma mula pode ser, porque, ao possuir uma só idéia para tudo, não podem nunca entrar em contradições. Também os senhores que açoitavam os negros escravos no século XIX – ou os surravam e os arrastavam com suas camionetas no século XX – e os escravos compartilhavam os mesmos valores e a mesma cultura. Outros homens e mulheres, livres e escravos, desprezaram esses valores e essa cultura dominante, e não foram, precisamente, os piores norte-americanos.

Deveria começar respondendo que vivo nos Estados Unidos porque não vivo sozinho, porque não sou eu o ditador que decide onde deve viver minha família, segundo seus desejos e necessidades. Vivo nos Estados Unidos porque é aqui onde tenho meu trabalho. Estas deveriam ser duas razões suficientes, mas nunca devemos subestimar a simplicidade do fascismo.

Quando vivia em meu país (meu país de origem, não de minha propriedade) e publicava duras críticas contra seu governo e contra alguns de nossos costumes, não faltou o fascista que me acusasse de antipatriota, ou que também sugerisse que para ser patriota é necessário um alto grau de acrítica (hipo-crítica). Quando a crise econômica açoitou a classe média e baixa em meu país, vi-me na definitiva necessidade de emigrar, aceitando um convite de um professor norte-americano para continuar minha carreira aqui. Os ricos e acomodados no poder de turno não emigram. Movem seus capitais ou saem de férias e, depois, incham o peito com seu patriotismo. “O senhor X serviu sua pátria toda a vida”, repetem, para dissimular o fato de que sua pátria toda a vida lhe serviu.

Isto é, vivo nos Estados Unidos porque exerço o direito a trabalhar onde considero que existe uma melhor oportunidade de trabalho, como qualquer outra pessoa, mas isso não significa que deva fechar um olho a todos os defeitos e barbaridades que vejo no país onde vivo. Muitos norte-americanos vivem e trabalham no Iraque e em muitos outros países, ao mesmo tempo que criticam ou desprezam estas mesmas culturas. E nem por isso vão embora de lá. Também muitos norte-americanos têm grandes negócios em quase todos os países do mundo, neles trabalham e vivem, e não é o amor pelos valores e pela cultura desses países o que os mantêm onde estão.

Não é meu caso. Eu não desprezo o país de meu filho. Vivo nos Estados Unidos porque ainda creio que este país não está composto por trezentos milhões de McCarthys, mas sim também de uns quantos Carl Sagan, Norman Mailer, Ernest Hemingway, Toni Morrison, Charles Bukowski, Paul Auster, Truman Capote, Noam Chomsky e outsiders como Edward Said, Albert Einstein e muitos mais que, em seu momento, foram acusados de ser elementos perigosos, só porque se atreveram a exercer a crítica radical – radical como toda crítica que vai às raízes de um problema – porque ainda acreditavam na humanidade.

Vivo nos Estados Unidos porque algo também admiro neste país – acho graça dos que afirmam alegremente que aqui não há cultura –, não pelo lixo que é consumido como deliciosos manjares, mas por suas deliciosas mentes que são desprezadas como lixo. Ou seja, digo também que vivo nos Estados Unidos porque para um escritor acostumado à luta dialética, nada melhor que viver, como dizia José Martí com alguma imprecisão, “nas entranhas do monstro”.

Vivo nos Estados Unidos porque não creio que um país ou uma cultura tenham donos ideológicos nem donos legais. Vivo nos Estados Unidos como poderia viver em qualquer outro lugar do mundo, porque posso me mover pela necessidade de trabalho e profissional, mas não me amedrontam aqueles que não só se acreditam proprietários do Planeta, e que, além de pretender expandir seus domínios, exigem que os críticos terminem por ceder, amavelmente e de forma voluntária, os últimos espaços que ainda restam para a dissidência ou, simplesmente, para a análise crítica.


 (*)http://mrzine.monthlyreview.org/majfud141106.html o o http://www.bitacora.com.uy/articulos/2003/enero/104/principal.htm

Fonte: ¿Por qué vivo en Estados Unidos?

Artigo original publicado em 14 de outubro de 2008

Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Jorge Majfud é autor associado de Tlaxcala e colaborador de ViaPolítica. Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser livremente reproduzida, na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como citados o autor, o tradutor e à fonte.

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NO VENTRE DA BALEIA: 19/10/2008

 
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