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23/10/2017
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“O capitalismo mais próximo do fim"- Entrevista com Immanuel Wallerstein


AUTOR:  Antoine REVERCHON

Traduzido por  Fernando Esteves, revisado por Omar L. de Barros Filho


IMMANUEL WALLERSTEIN , pesquisador do Departamento de Sociologia da Universidade de Yale, ex-presidente da Associação Internacional de Sociologia. 

Signatário do manifesto do Fórum Social de Porto Alegre (“12 Propostas para um outro mundo possível”), em 2005, o senhor é considerado um dos inspiradores para o movimento altermundialista. O senhor fundou e dirigiu o Centro Fernand-Braudel para o estudo da economia dos sistemas históricos e das civilizações, da Universidade do Estado de Nova York, em Binghamton. Como situa a atual crise econômico-financeira no “longo período” do capitalismo ?

I.W : Fernand-Braudel (1902-1985) distinguia o tempo da “longa duração’’, onde está implicada a sucessão, na história humana, dos sistemas que determinam a relação do homem com seu meio material e, no interior dessas fases, o tempo dos longos ciclos conjunturais, descritos por economistas como Nicolas Kondratieff (1882-1930) ou Joseph Schumpeter (1883-1950). Estamos, hoje, claramente na fase B do ciclo de Kondratieff, que começou há 30-35 anos, após uma fase A, que  foi a mais longa (de 1945 a 1975), em 500 anos  de sistema capitalista.

Na fase A, o lucro é gerado pela produção material, industrial ou outra qualquer. Na fase B, o capitalismo deve, para continuar a gerar lucro, financeirizar-se e refugiar-se na especulação. Depois de mais de 30 anos, as empresas, os Estados e as instituições, endividaram-se exorbitantemente. Estamos, hoje, na última parte da fase B de Kondratieff, quando o declínio iminente torna-se real e as “bolhas” estouram uma atrás da outra: as falências se multiplicam, a concentração do capital aumenta, a taxa de desemprego sobe e a economia sofre uma deflação real.

Mas, hoje, esse momento do ciclo coincide, e agrava-o, com um período de transição entre dois sistemas de longa duração. De fato, penso que entramos, após 30 anos, na fase terminal do sistema capitalista. A diferença fundamental dessa fase terminal em relação à sucessão interrompida dos ciclos conjunturais anteriores, é que o capitalismo não consegue mais “fazer sistema”, no sentido em que o entende o físico e químico Ilya Prigogine (1917-2003): quando um sistema, seja biológico, químico ou social, com freqüência é desviado de sua situação de estabilidade, ele não consegue mais reencontrar o equilíbrio. E o que acontece, então, é uma bifurcação.

A situação torna-se caótica, incontrolável pelas forças que a dominaram até aqui, e vê-se surgir uma luta, não mais entre mantenedores e opositores do sistema, mas entre todos os participantes, com o propósito de determinar quem vai substituí-las. Conservo o uso da palavra “crise” para períodos como esse. Muito bem, estamos em crise. O capitalismo aproxima-se do fim.

Não se trata antes de uma nova mutação do capitalismo, que já experimentou a passagem do capitalismo comercial para o capitalismo industrial, e do capitalismo industrial para o capitalismo financeiro?

I.W :  O capitalismo é onívoro, ele capta o lucro onde este é mais proeminente num dado momento. Ele não se satisfaz com lucros marginais. Ao contrário, ele os maximiza estabelecendo monopólios – foi o que aconteceu recentemente com as biotecnologias e as tecnologias da informação. Mas, penso que as possibilidades de acumulação real do capitalismo alcançou seus limites. O capitalismo, após seu nascimento na segunda metade do século XVI, alimentou-se do diferencial de riqueza entre um centro, para onde convergiam os lucros, e as periferias (não necessariamente geográficas) cada vez mais empobrecidas.

Nesse sentido, a recuperação econômica da Ásia, da Índia, da América Latina, constitui um desafio insuperável para a “economia-mundo” criada pelo Ocidente, que não consegue mais controlar os custos da acumulação. As três curvas mundiais de preços de mão-de-obra, de matérias primas e impostos estão, em toda parte, em forte alta após décadas.

O curto período neoliberal que está acabando, inverteu apenas provisoriamente a tendência: no fim dos anos 90, esses custos eram, com certeza, menos elevados que em 1970, mas eram bem mais consideráveis que em 1945. De fato, o último período de acumulação real – os “trinta gloriosos” – só têm sido possível porque os Estados keynesianos colocaram todas suas forças à serviço do capital. Mas, ainda assim, o limite foi alcançado.

Há precedentes dessa fase atual, tal qual o senhor a descreve ?

I.W : Houve vários precedentes na história da humanidade, ao contrário do que faz crer a representação, forjada na metade do século XIX, de um progresso contínuo e inevitável, aqui compreendido na sua versão marxista. Prefiro restringir-me à tese da possibilidade de progresso, e não à sua inevitabilidade. Sem dúvida, o capitalismo foi o sistema que soube produzir, de maneira extraordinária, a maior quantidade de bens e riquezas. Mas é necessário também somar as perdas – para o meio-ambiente, para as sociedades – que esse sistema perpetrou. O único bem é aquele que permite obter, para o maior número possível de pessoas, uma vida racional e inteligente.

Dito isso, a crise mais recente que se assemelha à crise atual foi o desmantelamento do sistema feudal na Europa, entre os séculos XV e XVI, e sua substituição pelo sistema capitalista. Esse período, que culmina com as guerras religiosas, vê o fim da influência das autoridades reais, feudais e religiosas sobre as comunidades camponesas e cidades. Foi assim que se deram, depois de tentativas seguidas e de maneira inconsciente, as soluções inesperadas que acabaram por “fazer sistema”, até tomar a forma do sistema capitalista tal como o conhecemos hoje.

Quanto tempo durará a transição atual, e onde ela levará ?

I.W : O período de destruição de valor que encerra a fase B do ciclo de Kondratieff dura, geralmente, de dois a cinco anos, até que as condições de início de uma fase A sejam reunidas, para que o lucro real possa ser novamente tirado de novas produções materiais descritas por Schumpeter. Mas o fato é que essa fase corresponde a uma crise do sistema que nos fez entrar num período de caos, no qual os principais atores, na chefia das empresas e dos Estados ocidentais, farão tudo o que for tecnicamente possível para reencontrar o equilíbrio, mas é muito provável que não consigam.

Os mais inteligentes entre eles já compreenderam que é necessário colocar algo inteiramente novo no lugar. Porém, vários deles agem de modo desordenado e inconsciente para encontrar novas soluções, sem que se saiba ainda o que resultará dessas tentativas.

Estamos num momento muito raro, onde a crise e a impotência dos poderosos dão lugar ao livre arbítrio de cada um: existe hoje um lapso de tempo no qual todos nós temos a possibilidade de influenciar o futuro com nossa ação individual. Mas como esse futuro será a soma do número incalculável dessas ações, é absolutamente impossível prever que tipo de sistema se estabelecerá. Daqui dez anos, veremos mais claramente que em 30, 40 anos um novo sistema terá emergido. Creio ser possível a instalação tanto de um sistema mais explorador e violento quanto o capitalismo ou, ao contrário, de um sistema mais igualitário e distributivo.

As transformações anteriores do capitalismo por vezes resultaram no deslocamento do centro da “economia-mundo”. Por exemplo, da bacia do Mediterrâneo para a costa européia, e depois para os EUA. O próximo sistema terá seu centro na China ?

I.W : A crise que estamos vivendo corresponde também ao fim de um ciclo político, o da hegemonia estadunidense, iniciado em 1970. Os EUA ainda serão atores importantes, mas não chegarão a reconquistar sua posição dominante face à multiplicidade dos centros de poder, como Europa, China, Brasil e Índia. Um novo poder hegemônico, se se pensa no “longo período” braudeliano, pode levar ainda uns 50 anos para se impor. Mas ignoro qual seja.

Com o tempo as conseqüências políticas da crise atual serão enormes, na medida em que os donos do sistema tentarão encontrar bodes expiatórios para o desmantelamento de sua hegemonia. Penso que pelo menos metade do povo americano não aceitará o que está para acontecer. Os conflitos internos se agravarão nos EUA, que está em vias de se tornar o país mais instável do mundo, politicamente falando. E lembre-se de que, todos nós, americanos, temos armas.


Hélio Cunha, Os Malditos


Fonte: "Le capitalisme touche à sa fin"

Artigo original publicado em 11/10/2008

Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Fernando Esteves e Omar L. de Barros Filho são  membros de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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 “Il sistema capitalista oggi? Un malato allo stadio terminale”


NO VENTRE DA BALEIA: 23/10/2008

 
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