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14/12/2017
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A proposta do senador uruguaio Fernández Huidobro

A guerra das gerações


AUTOR:  Jorge MAJFUD

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


O Estado pouco ou nada pode fazer para mudar uma cultura, mas ainda pode fazer muito para reparar uma educação que contenha a violência social.

A proposta Huidobro

Nos Estados Unidos, como no Uruguai e em tantos outros países, cada vez que a sociedade se enfrenta com uma experiência traumática relacionada a fatos marcadamente cruéis de violência civil, logo aparecem dois grupos. Um grupo que advoga pelo direito de usar armas para que os cidadãos honestos possam se defender dos delinqüentes, e outro grupo que alerta que essa proliferação de “armas para a defesa” rapidamente se transforma em uma mina de “armas para a delinqüência”.

Há pouco, o senador uruguaio Fernández Huidobro  contribuiu para essa polêmica afirmando que “não quero uma sociedade em que todos estejam armados, mas estamos vivendo uma situação excepcional”. Por que estamos vivendo uma situação excepcional? Pelo último terremoto que golpeou o Chile ou o Afeganistão? Pelos ciclos solares ou pela crise financeira nos Estados Unidos e Japão? Os opositores ao governo, que o próprio Huidobro integra, dirão que tudo se deve à mão suave da esquerda no poder. Mas podemos ampliar ainda mais a pergunta: realmente estamos vivendo uma situação excepcional?


Eleuterio Fernández Huidobro
Guerrilhero no final dos anos sessenta, hoje senador
Mara de Oliveira/Ramiro Alonso

Talvez o Uruguai se considerasse um oásis de paz se por um dia apenas vivenciasse dentro de suas fronteiras os problemas que o México tem, por exemplo. Não obstante, a violência civil no Uruguai, Brasil, Estados Unidos ou Espanha apresenta muitas variações, mas, no fundo, é algo natural, parte da substância de qualquer sociedade e, particularmente, lógico e conseqüente com nossas sociedades do último capitalismo. Desde antes da Segunda Guerra, nos Estados Unidos, a violência social que o capitalismo produz tem como contrapartida o minucioso trabalho das igrejas e, sobretudo, de agressivos programas socialistas que ganham outros nomes, da mesma forma que nos países socialistas a violência política se neutraliza com o comércio capitalista.

A delinqüência ilegal pode crescer o decrescer periodicamente, não por uma fatalidade do destino, mas, sim, porque uma sociedade aplica algum dos dois métodos conhecidos desde o Renascimento: (1) aumenta a repressão do Estado ou (2) diminui sua violência estrutural, isto é, econômica, social, racial, doméstica, ideológica, religiosa e moral. A violência moral, quase sempre, é contida pela repressão ideológica ou pela contenção da religião e do espetáculo midiático. É violência ideológica quando o senador José Mujica   elogia um universitário por não parecer universitário, o que nos permite muitas leituras e, entre elas, está o desprezo pelos méritos intelectuais. Este tipo de violência é ainda menor e menos tradicional que a assumida pela velha oligarquia que, além de viver do suor dos trabalhadores (por algum motivo “trabalhador” foi sempre um meritório eufemismo de “pobre”) se encarregou de organizar com sutileza sua humilhação que, com freqüência, incluía ideoléxicos como “vago”, “vulgar” ou “pelo-duro”.

O senador Huidobro acrescentou: “a delinqüência de hoje não tem códigos, não contam com uma ética". Assume-se que a delinqüência de ontem sim possuía códigos e ética. De fato, qualquer grupo, incluído os criminais, se organiza segundo alguns códigos e uma ética. Mas, assumimos que não são estes tipos de códigos e éticas os que uma sociedade está disposta a promover; nem sequer os próprios delinqüentes, que perderiam competitividade e clientes em uma sociedade sem trabalhadores honestos. Segundo o senador Fernández Huidobro, “o cúmulo é que hoje nem os presos podem hoje viver em paz, porque nos dominaram até os cárceres”. O que não é absurdo, mas parte da própria lógica: muitos dos que estão presos são delinqüentes. É como observar que as crianças estão dominando as creches e os jardins de infância, e não param de provocar problemas com seus choros e gritos.

Huidobro não melhora sua posição dialética quando insiste em que “a delinqüência de hoje pertence a uma civilização desconhecida, nova, que se auto-exclui e que não é a nossa, a que sempre conhecemos”. Mais tarde, de acordo com o diário La Republica, de Montevidéu, o mesmo senador confessa “não saber em que momento começou a se gerar este grau de violência na sociedade, esta ‘nova civilização’, embora ‘o fenômeno das chamadas barras bravas seja um invento relativamente novo’” (21/11/2008). Tudo é um problema menor de diagnóstico (não há nenhuma civilização nova) e de percepção, já que se existe algo antigo no mundo são as turbas e as organizações criminais.

O que nos deveria preocupar é que em vez de progredir como sociedades seguimos estagnados. Não há nada de novo: temos a mesma doença que há 100 anos, mas agravada pela cultura e as condições materiais do século XXI.

Uma juventude controlada por velhos

Quando no século XIX, na América Latina, se discutia quem tinha direito ao voto, a maioria dos políticos e intelectuais da época estavam de acordo que o direito devia ser reservado àqueles que tinham propriedades. Alguns, inclusive, fixaram o montante da riqueza de cada pessoa para manter este inovador direito. O argumento radicava-se na idéia que um proprietário era mais responsável do que quem não o era. Lógico: alguém tende a ser responsável quando cuida de seus próprios interesses. Mas estes interesses implicavam injustiça na privação de um direito civil daqueles que não tinham sequer o beneficio da estabilidade econômica. Isto é, a violência econômica reproduzia a si mesma através da violência ideológica e moral.

O fenômeno da violência civil é uma conseqüência lógica, não uma contradição, de qualquer sociedade consumista. Mais ainda nos países pobres. Aparentemente, os linchamentos, como em Moçambique ou os mais recentes na Bolívia, têm um efeito de curto prazo na contenção da delinqüência, e um efeito de longo prazo na criação de sociedades aterrorizadas e reprimidas, sem contar com a injustiça que esses julgamentos irracionais costumam trazer. É difícil que uma sociedade madura, ou que pretende amadurecer além de um estado cavernícola, possa propor métodos tão precários que pudessem funcionar na escala de uma tribo, mas resultaria no Apocalipse se se instaura na escala de sociedades numerosas e muito mais complexas como as nossas.

O debate sobre o uso legal de armas nunca terá uma conclusão definitiva porque ambos têm parte da razão: se os delinqüentes atacam o resto dos indivíduos, estes têm direito a se defender. Mas, se aqueles que se sentem ameaçados começam a comprar mais armas, logo teremos (ou seguiremos tendo) sociedades que, no melhor dos casos, serão sociedades assentadas no instável equilíbrio das armas.

Porém, a violência legal – estatal ou privada – nunca é suficiente para conter e, muito menos, eliminar a violência ilegal. Em alguns casos, quando é o único recurso, a repressão não legaliza mas legitima a violência ilegal.

A longo prazo, a forma de evitar a violência ilegal radica em eliminar de forma progressiva a violência legal. Com violência legal me refiro não somente a um estado policial ou militarizado mas, sobretudo, à violência que deriva das próprias contradições de uma sociedade. Entre estas contradições a mais clássica é que surge da própria lógica do consumismo: a promoção do desejo e a repressão do prazer, lei que afeta com mais crueldade as crianças e adolescentes dos países pobres.

Essa lógica do capitalismo consumista costuma agravar a violência quando a uma cultura enferma somamos uma educação insuficiente. O narcotráfico, por exemplo, não existiria sem o consumo de drogas; vítima e algoz são partes inseparáveis da mesma lógica social e cultural. A pseudo-solução mais comum é aumentar a repressão, o que também produz a idéia de que o sistema X não é o culpado do que produz, mas, sim, imperfeito por culpa do que reprime.

Opino que não existe solução a curto prazo. Menos quando, diante de um estado de insatisfação social, as soluções sobre o melhor azul consistem em escolher entre o branco ou o preto.

O Estado pouco ou nada pode fazer para mudar uma cultura, mas ainda pode fazer muito para reparar uma educação que contenha a violência social, e converta este desperdício de energia física e intelectual em projetos criativos. Para isso existem muitas outras instituições subalternas, como o esporte, a arte, as ciências e o comércio. O passo mais imediato consiste em um prioritário investimento em programas de socialização da infância e da adolescência. Entre estes, os programas mais importantes consistem em priorizar a educação física através de uma maior variedade de esportes e de espaços para a cultura artística e científica. A essas velhas intenções, nunca materializadas seriamente, deve-se agregar uma política radical: a organização tem que estar apoiada na gestão assistida das próprias crianças e adolescentes. Isto é, deve resultar em tomada de responsabilidades e em seu usufruto por um dos setores sociais mais marginalizados, por um prejuízo etário, em lugar de apresentar o Estado como um gendarme, com o qual se deve cumprir sem receber nada imediato em troca. Em outras palavras, baixar a minoridade na gerência da sociedade.

Deixem de tratar as crianças como se fossem anjos ou demônios. Devolvam mais poder social e doméstico aos adolescentes e teremos sociedades mais maduras.


 Fonte: La guerra de las generaciones

Artigo original publicado em 23/11/2008

Tradução redigida em português do

Sobre o autor 

Jorge Majfud é autor associado de Tlaxcala, Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica  e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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AO SUL DA FRONTEIRA: 30/11/2008

 
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