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16/12/2017
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Caça aos piratas


AUTOR:  M.K. BHADRAKUMAR

Traduzido por  Fernando Esteves, revisado por Alexandre Leite


“Senhor, nos deixou orgulhosos”. Assim se dirigiu um apresentador de um canal de televisão de Delhi ao capitão da marinha indiana, o almirante Sureesh Mehta, referindo-se à vitória do navio de guerra indiano Tabar sobre possíveis seqüestradores.

Com certeza, essas palavras fariam inveja a Sir Francis Drake, viajante e político escravista britânico do século 16. Sir Francis merecia ainda mais essa fama, em sua curta vida interrompida pela disenteria durante o ataque contra San Juan, Porto Rico, em 1595.

 
O INS Tabar e o MV Jag Arnav. AP Photo

Não surpreende que a mídia indiana tenha expressado sua gratidão e confiança nas forças armadas indianas. Essas, por sua vez, aproveitaram a ocasião para desviar a atenção de um escândalo acerca de um suposto envolvimento de seus homens em atividades terroristas de fundamentalistas hindus. A marinha indiana voltou a ver “ação” depois de um intervalo de 37 anos, ou seja, desde a guerra de Bangladesh.

Segundo a declaração oficial, cuidadosamente preparada pela marinha, piratas atacaram o navio de guerra Tabar, e esta reagiu em autodefesa abrindo fogo contra a nave mãe. Os seqüestradores se refugiaram na escuridão, enquanto o navio indiano afundava um barco pirata. O episódio teve ampla repercussão internacional. Porém, surgiram algumas questões.

Chief of Naval Staff Admiral Sureesh Mehta
O Almirante Sureesh Mehta. Foto Reuters Pictures

A pirataria marítima assombra a opinião pública internacional. O recente seqüestro do petroleiro Sirius Star - um petroleiro grande o suficiente para conter um quarto da produção diária da Arábia Saudita (2 milhões de barris) - trouxe à luz a gravidade do problema. O péssimo governo da Somália não é capaz de frear os piratas que aportam na costa do país e seqüestram navios comerciais.

Os piratas a bordo do Sirius Star exigiram um resgate de 25 milhões de dólares e aventaram a possibilidade de conseqüências “desastrosas” caso não recebessem o dinheiro.

Um mal que se acreditava relegado aos filmes e histórias em quadrinhos voltou a ser uma ameaça. Mas, diferentemente dos bucaneiros do passado, os piratas somalis são bem armados e organizados em dois ou três cartéis. São capazes de bloquear a atividade marítima do Oceano Índico até o mar vermelho e o Golfo Pérsico. O seguro de navios que fazem a rota entre o “chifre da áfrica” e a península arábica teve um aumento de 10 vezes sobre o valor anterior e os custos adicionais chegam a 400 milhões de dólares por ano.

Na terça feira, a Maersk, a maior companhia naval do mundo, anunciou que não vai mais arriscar seus petroleiros nas costas da Somália. Disse que redirecionaria sua frota de 50 petroleiros através do Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África: rota muito mais longa e dispendiosa.

A presença de navios estrangeiros não consegue resolver o problema. Foram deslocados para a costa da Somália cerca de 14 navios de vários países, inclusive a OTAN, enquanto calcula-se que passam anualmente pelo Golfo Pérsico mais de 20 000 navios. Além disso, surgem interrogações quanto à legalidade das operações destes navios de guerra. Enquanto a OTAN assegura o pedido do secretário geral da ONU de interdição das águas internacionais ao longo da costa da Somália, o mesmo não se pode dizer da Rússia ou da Índia. A Rússia afirma que o governo da Somália pediu sua ajuda, mas a verdade é que o poder em Mogadiscio é bastante vago.  É de notar que a marinha indiana sublinhou ter “reagido em autodefesa”.

O mais óbvio seria agir sob ordens da ONU, de preferência envolvendo a União Africana e os estados litorâneos que têm os meios militares necessários ou que possam receber ajuda para desenvolvê-los. Mas isso não aconteceu, e há fortes suspeitas de que se esteja desenvolvendo um grande jogo pelo controle da rota marítima no Oceano Índico através do estreito de Malaca e Golfo Pérsico. Essa rota marítima é uma das mais visadas para o transporte de mercadorias como petróleo, armas e produtos industriais entre a Europa e a Ásia. A colaboração regional eficaz para conter a pirataria no estreito de Malaca deveria servir de exemplo.

Dizem que os piratas poderiam servir de cobertura aos grupos terroristas internacionais. Especialistas em terrorismo se adiantaram e especulam sobre o fato de que a al Qaeda possa copiar o procedimento dos piratas somalis. Incluiremos a pirataria na “guerra ao terror?”

Seria lamentável, pois a desorganização prevalente na Somália é fácil de entender. A Somália é um país dividido e desorganizado como o Afeganistão, que nunca conheceu democracia nem estabilidade. Mas a situação melhorou sensivelmente no início de 2006. A União das Cortes Islâmicas (ICU) assumiu o controle do país. A ICU conseguiu, de fato, restituir a ordem e a lei naquele país dilacerado pela rivalidade dos clãs e pela violência.

A administração de George Bush considerava inaceitável a ICU. Segundo a lógica perversa do 11 de setembro, como admitir que um governo islâmico possa constituir um bom governo? O resultado foi a invasão da Etiópia cristã em 2007, com o apoio dos EUA. A invasão não teve uma vitória decisiva e apenas contribuiu para dividir a ICU, e os membros mais radicais conhecidos como “shabah” (jovens) prevaleceram.

As conseqüências são óbvias. Não há dúvida de que o problema da pirataria na Somália deve ser também resolvido em terra firme. Porém, como acontece com freqüência, a solução só é possível se os soldados e os geo-estrategistas se abstiverem por um momento. Pelo menos é essa a opinião de Katie Stuhdreher. Em artigo recente publicado na Christian Science Monitor, Stuhldreher apresenta uma tripla abordagem do problema da Somália. Antes de qualquer coisa, a comunidade internacional deveria entender que a pirataria na Somália teve origem no descontentamento de pescadores obrigados a competir com a pesca ilegal exercida por barcos estrangeiro nas águas costeiras ricas em atum.

Esta luta injusta tem empobrecido a população local. A revolta da população costeira é causada também pelo despejo de lixo nas águas da Somália por navios estrangeiros. Os pescadores da região, descontentes e vencidos, rapidamente se organizaram para atacar os pesqueiros estrangeiros e pedir um ressarcimento. Seus esforços tiveram êxito e levaram muitos jovens a trocar as redes de pesca por fuzis AK-47.

Stuhldreher sugeriu: tornar a área costeira novamente lucrativa para os pescadores locais, encorajaria os piratas a se dedicarem a atividades legais. Portanto, continua ela, “uma força que proteja a pesca, eliminaria a legitimidade da pirataria. Tudo isso poderia ser desenvolvido sob a orientação da ONU ou da União Africana ou de uma ‘’coalizão de voluntários”.

Ainda mais importante: “uma força internacional enviada para proteger a indústria local

obteria os mesmos resultados que os navios de guerra, porém de maneira menos drástica. O que propicia a pirataria ao longo da costa da Somália é o fato de não haver qualquer autoridade que proteja as águas costeiras. Navios de guerra estrangeiros, podem ocupar esse vazio e desencorajar os ataques, mas com a clara missão de apoiar o povo somali, um povo que tem motivos de sobra para odiar as intervenções militares estrangeiras e provavelmente tem visto a presença de navios de guerra como uma forma de intimidação”.

Mas entre os EUA, OTAN, países europeus, Rússia e Índia, haverá alguém interessado em “erguer um país”? É pouco provável. O ideal seria que a comunidade internacional iniciasse um processo de reconciliação que envolvesse os elementos dispersos da ICU. Em retrospectiva, como no Afeganistão com os talibãs, uma compreensão justa do islamismo ajudaria a avaliar melhor os esforços da ICU para a estabilização da Somália.

Ao contrario, sob o pretexto de luta contra a pirataria marítima, o que estamos vendo é um tipo totalmente diverso de atividade marítima das potências intervencionistas. Os EUA criaram no Pentágono um comando especial para a África. A OTAN e a União Européia saíram do território europeu e foram para o Oceano Índico. A Rússia está querendo reabrir uma base naval em Aden, da época da União Soviética. A Índia pediu e obteve permissão para aportar seus barcos de guerra em Oman - um ato sem precedentes – a fim de estabelecer uma presença constante no Golfo Pérsico. O Oceano Índico está se transformando num novo palco para o “grande jogo”. Parece ser questão de tempo, a presença da China.

A China tem história no Oceano Índico. Em 1405, durante o reinado do imperador Yung-lo da dinastia Ming, o célebre comandante chinês Ching-Ho visitou Ceilão ( hoje Sri Lanka) trazendo incenso para oferecer ao famoso santuário de Buda na cidade de Kandy. Ching – Ho sofreu uma emboscada do rei cingalês         Wijayo Bahu VI, porém conseguiu escapar. Para se vingar, a China, anos depois, enviou Ching-Ho, que capturou o rei cingalês e sua família, fazendo-os prisioneiros. Mas vendo os prisioneiros, o imperador chinês, por piedade, ordenou que fossem soltos com a condição de que o “mais sábio da família fosse eleito rei”. O novo rei, Sri Prakrama Bahu, recebeu o selo de investidura e tornou-se vassalo do imperador chinês. Essa situação durou até 1448, com Ceilão pagando tributo anual à China.

O almirante Mehta tem um grande exemplo diante de si, para que possa convencer seu país a mostrar seu poder na África pela primeira vez em sua história. Um bom argumento seria o de que se não agirem rápido, a China poderá se adiantar e fazer novas incursões no Oceano Índico. Mas há também um risco interno: que os piratas que desapareceram, na terça feira, em meio às brumas, venham novamente atacar o Tabar, o navio de guerra indiano.


Fonte: The great game of hunting pirates

Artigo original publicado em 22/11/2008

Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Fernando Esteves e Alexandre Leite são membros de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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MÃE AFRICA: 05/12/2008

 
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