HOME TLAXCALA
a rede de tradutores pela diversidade lingüística
MANIFESTO DE TLAXCALA  QUEM SOMOS ?  OS AMIGOS DE TLAXCALA   PESQUISAR 

AO SUL DA FRONTEIRA (América Latina e Caribe)
IMPÉRIO (Questões globais)
TERRA DE CANAà(Palestina, Israel, Líbano)
UMMA (Mundo árabe, Islã)
NO VENTRE DA BALEIA (Ativismo nas metrópoles imperialistas)
PAZ E GUERRA (USA, UE, OTAN)
MÃE AFRICA (Continente africano, Oceano índico)

ZONA DOS TUFÕES  (Ásia, Pacífico)
KOM K DE KALVELLIDO (Diário de um cartunista proletário)
TEMPESTADE CEREBRAL  (Cultura, Comunicação)
OS INCLASSIFICADOS 
CRÔNICAS TLAXCALTECAS 
O FICHÁRIO DE TLAXCALA  (Glossários, dicionários, fichários)
BIBLIOTECA DE AUTORES 
GALERIA 
OS ARQUIVOS DE TLAXCALA  

22/10/2017
Español Français English Deutsch Português Italiano Català
عربي Svenska فارسی Ελληνικά русски TAMAZIGHT OTHER LANGUAGES
 

O “caso Freeman” em Washington: um ponto a menos para o lobby judeu


AUTOR:  John J. MEARSHEIMER

Traduzido por  Fernando Esteves


Enquanto a coalizão que colocou Barack Obama na casa branca se dilacera, o lobby judeu (AIPAC) acaba de afastar o embaixador Charles Freeman da presidência do conselho nacional de inteligência. Após anos, Charles Freeman, tornou-se líder de uma corrente no interior do departamento de estado e da CIA, que tenta redirecionar a política de Washington, em relação ao oriente médio, de acordo com os interesses americanos. Freeman foi responsável pela publicidade em torno do livro dos professores John Mearsheimer e Stephen M. Walt; ajudou na conclusão dos contratos petrolíferos entre China e Irã; providenciou a vinda do presidente Ahmadinejad na universidade de Columbia e, mais recentemente, levou seu apoio ao enviado especial da ONU nos territórios palestinos, Richard Falk. Por ter se intrometido, o lobby judeu o acusou de servir os interesses sauditas e chineses, o que ele não podia desmentir, senão revelar seu papel exato no serviço de inteligência americano. Eis, portanto, que uma evidente ação do lobby judeu contra um eminente membro da comunidade de inteligência americana, conseguiu colocar esta contra Freeman.

Freeman tem uma carreira brilhante de trinta anos no serviço de diplomacia e no ministério da defesa, e criticou publicamente a política israelense e a relação que os EUA mantem com Israel dizendo, por exemplo, durante um discurso feito em 2005, disse que “enquanto os EUA continuarem a fornecer, incondicionalmente, financiamentos e proteção política, que tornam a ocupação israelense e a política violenta e autodestrutiva ( para Israel)  que é gerada por essa ocupação, haverá poucas razoes, se houver alguma razão, para esperar que o quase extinto processo de paz possa ser ressuscitado”. Palavras assim raramente são pronunciadas em Washington, e quem quer que as utilize, é quase certo de não conseguir nunca uma responsabilidade governamental de alto nível. Porem, o almirante Dennis Blair, o novo diretor da inteligência nacional, admira Freeman, que ele acreditava ser o tipo da pessoa capaz de revitalizar os expedientes dessa mesma inteligência, que foi extremamente politizada durante a era bush.

Como era de se esperar, o lobby judeu lançou uma campanha de difamação contra Freeman, na esperança de que ele se demitisse do cargo ou fosse demitido por Obama. O lobby judeu, lançou seu primeiro ataque na forma de um texto publicado num blog por Steven Rosen, antigo responsável pela AIPAC ( American Israel Public Affairs Committee), hoje sob investigação por ter transmitido informações secretas a israel. “A opinião de Freeman sobre o oriente médio”, diz Rosen, “é a mesma que se poderia esperar do ministro de assuntos estrangeiros saudita, ao qual Freeman, é bastante ligado”. Jornalistas pró-israel de grande renome, como Jonathan Chait e Martin Peretz, da revista The New Republic, e Jeffrey Goldberg do The Atlantic, se juntaram rapidamente `a campanha, e Freeman foi bombardeado por publicações que defendem Israel  de modo incondicional, como The National Review, The Wall Street Journal e Weekly Standard.

 Porem, os ataques mais sérios vieram do congresso, onde a AIPAC (que se autodenomina “lobby pro-israelense da América”) tem um poder absurdo. Todos os membros republicanos da comissão de inteligência do senado, repreenderam severamente Freeman, como também fizeram senadores democratas como Joseph Lieberman e Charles Schumer. “não sei quantas vezes aconselhei a casa branca afastá-lo”, disse Schumer, “ e estou feliz que tenham feito a única coisa que tinham a fazer”. Mesma coisa na câmara dos representantes, onde a acusação foi movida pelo republicano Mark Kirk e o democrata Steve Israel, que levou Blair a fazer uma investigação impiedosa das finanças de Freeman. Finalmente, a presidente da câmara dos representantes, disse que a nomeação de Freeman era abusiva. Freeman poderia ter sobrevivido a essa “caça” se a casa branca o tivesse apoiado. Mas o vil apoio de Obama durante a campanha eleitoral ao lobby judeu, e seu silencio aterrador durante a invasão de Israel a faixa de gaza, mostram que o lobby judeu não é, para ele, um oponente a se enfrentar. Então, como era de se esperar, ele ficou quieto e Freeman não teve outra escolha senão se demitir.

Depois disso, o lobby judeu procedeu a enormes esforços para negar seu papel na demissão de Freeman. O porta-voz da Aipac, Josh Block, disse que sua organização “não tomou posição nesse caso e que ela (Aipac) não exerceu qualquer lobbying no capitolio a esse respeito”. O Washington post, cuja pagina editorial é dirigida por Fred Hiatt, homem totalmente favorável a “relação especial” entre Israel e EUA, publicou um editorial afirmando que culpar o lobby judeu pela demissão de Freeman é dar credito aos sonhos de Freeman e aos teóricos do complot.

Na realidade, as provas do envolvimento da Aipac e outros partidários fanáticos de Israel na campanha de difamaçao de Freeman são inúmeras. Block admitiu ter dado informações sobre Freeman a jornalistas e bloggers, após garantir que seus comentários não seriam atribuídos a ele pessoalmente nem a ipac. Jonathan Chait, que negou que Israel tenha sido a origem das controvérsias, antes do afastamento de Freeman, disse depois: “ certamente reconheço que o lobby judeu é poderoso, e que foi um elemento-chave na perseguição contra Freeman, e também que esse lobby nem sempre é um poder benéfico”. Daniel Pipes, diretor do Middle East Fórum, onde Steven Rosen trabalha atualmente, enviou prontamente uma circular por email, revelando o papel desempenhado por Rosen na demissão de Freeman.

A 12 de março, no dia em que o Washington post publicou um editorial criticando todos que haviam sugerido a participação do lobby judeu na demissão de Freeman, o mesmo jornal publicou um artigo na primeira pagina, descrevendo o papel fundamental que teve o lobby no caso Freeman. Havia também um comentário de um experiente jornalista, David Broder, que começava assim: “a administração Obama acaba de sofrer uma derrota constrangedora por parte dos lobbystas que ele, Obama, jurou colocar nos lugares”.


Carlos Latuff, 2006

Os detratores de Freeman dizem que sua opinião sobre Israel, dirigia-se a outros e não a ele. Diz-se que ele tem relações particularmente estreitas, e mesmo inapropriadas (para um diplomata), com a Arábia Saudita, onde ele foi, no passado, embaixador dos EUA. Essa acusação, porem, não procede, pois não há qualquer prova. Os partidários de israel disseram também que ele, Freeman, fez observações impiedosas a propósito do ocorrido com os manifestantes chineses na praça Tiananmen em Pekin ( em 1989), mas essa acusação, negada pelos defensores de Freeman, veio à baila porque os detratores pro-israel de Freeman, queriam não importa que argumento para sujar sua reputação.

Por que o lobby judeu se preocupa tanto com a nomeaçao para um cargo, importante sem duvida, mas nem tão importante assim? Eis uma razão, entre outras: Freeman fora responsável pela publicação dos relatórios dos serviços de inteligência. Israel e seus partidários ficaram furiosos após o conselho nacional de inteligência ter concluído, em novembro de 2007, que o Irã não estava construindo bomba nuclear nenhuma, e começaram a trabalhar com toda pressa a fim de destruir os relatórios (o que continuam fazendo). O lobby quer garantir que o próximo relatório sobre a capacidade nuclear do Irã tenha uma conclusão radicalmente diferente, e isso teria menos chance de acontecer com Freeman no comando. Melhor alguém declaradamente pro Israel para conduzir a coisa toda.

Outra razão- ainda mais importante- para o lobby judeu ter tirado Freeman de seu posto, é a fraqueza do argumento passível de justificar a política americana atual em relação a Israel, que torna imprescindível intimar ou relegar ao silencio qualquer um que ouse criticar a relação especial dos EUA com Israel. Se Freeman não tivesse sido punido, outros teriam visto que é possível criticar Israel e fazer carreira em Washington. E a partir do momento em que se estabelecesse um debate aberto acerca de Israel, a “relação especial” estaria seriamente comprometida.

Um dos aspectos mais notáveis do “affair Freeman”, foi o silencio de algumas mídias em torno do assunto. O New York Times, por exemplo, não publicou nada sobre Freeman ate o dia seguinte a sua demissão, sendo que na blogosfera, havia uma batalha louca quanto a sua nomeação. Mas alguma coisa se produziu na dita blogosfera, que não seria jamais produzida nas outras mídias: o lobby judeu encontrou uma oposição real. De fato, um punhado de bloggers, bem informados e respeitados, que defenderam Freeman, teriam tido sucesso se o congresso não tivesse posto todo seu peso contra eles. Logo, a internet permitiu um debate serio nos EUA sobre uma questão concernente a Israel: já é um começo. O lobby jamais teve dificuldade em fazer observar a linha do partido ao New York e Washington Post,  mas calar os críticos que se expressam na internet, é outra coisa.

Antes, Quando as forças pro israelenses entravam em oposição com alguma personalidade política de destaque, essa personalidade, geralmente, recuava. Jimmy Carter, difamado após ter publicado seu livro “palestina: a paz, não o apartheid”, foi o primeiro americano eminente a resistir. O lobby não conseguiu cala-lo, e bem que tentou. Freeman esta no mesmo caminho que Carter, porem mais combativo. Após ser demitido, Freeman publicou sua denuncia em torno de “pessoas sem qualquer escrúpulo, totalmente dedicadas a defesa de uma facção política de um pais estrangeiro” cujo objetivo é “impedir, a todo transe, que opiniões diferentes sejam difundidas”. “Existe, continua Freeman, uma ironia peculiar no fato de se ver acusado de julgamento inapropriado quanto à posição de governos e sociedades estrangeiros por um clã tão manifestamente dedicado a impor a adesão política de um governo estrangeiro”.

A notável declaração de Freeman rodou o mundo inteiro, foi lida por uma quantidade enorme de pessoas. Isso não foi bom para o lobby, que teria preferido cortar pela raiz a nomeação de Freeman, sem deixar impressões digitais. Mas Freeman continuará a se expressar acerca de israel e do lobby pro-israel, e talvez alguns de seus aliados naturais, em Washington, acabarão por juntar-se a ele.

Lentamente, mas seguro, um espaço foi aberto nos EUA, onde será possível falar seriamente de Israel.


Fonte: The Lobby falters

Artigo original publicado em 26 de março de 2009

Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Fernando Esteves é membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

URL deste artigo em Tlaxcala:
http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=7429&lg=po

  


IMPÉRIO: 13/04/2009

 
 IMPRIMIR IMPRIMIR 

 ENVIAR ESTA PÁGINA ENVIAR ESTA PÁGINA

 
VOLVERVOLVER 

 tlaxcala@tlaxcala.es

HORA DE PARÍSI  17:48