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14/12/2017
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O (verdadeiro) Brasil na poesia de Costa Fernandes


AUTOR:  Adelto GONÇALVES


I

Ficcionista, ensaísta e poeta, Ronaldo Costa Fernandes (1952) é, sobretudo, lírico, como prova o seu último livro, A máquina das mãos (Rio de Janeiro: Sete Letras, 2009), o quinto de uma obra poética que está em construção, mas que já se afirma como uma das mais autorizadas vozes líricas da poesia brasileira contemporânea. Esse lirismo está presente também em sua produção ficcional, como sabe quem leu O Viúvo (Brasília: LGE Editora, 2005), um romance que só não obteve maior repercussão porque saiu por uma editora fora do eixo Rio-São Paulo, vítima que é o seu autor, como tantos outros, do desprezo que a grande indústria editorial devota à literatura brasileira sob o discutível argumento de que não vende.

(Essa mesma visão mercantilista não só impede a grande indústria editorial de perceber que a literatura brasileira não vende porque não é publicada como mata no nascedouro muitas vocações. E ainda leva à valorização daquilo que, embora venda, não presta: basta um figurão do show business escrever qualquer patacoada para que o “produto” logo ganhe foro de genialidade e páginas nas revistas e no espaço cultural dos jornais).

Se um poeta é aquele que sabe tocar o exato limite entre a falta e o excesso, a forma e o fundo, a linguagem e o conteúdo, o estilo e a temática, como bem observou o também poeta e crítico Hildeberto Barbosa Filho no posfácio que escreveu para A máquina das mãos, este poeta é Ronaldo Costa Fernandes que, acima de tudo, nunca perde a ternura que, afinal, é o material de combustão de que se faz a verdadeira poesia.

 
De A máquina das mãos

Quem quiser comprovar o que se escreve aqui que leia com atenção os versos que o poeta dedicou a dois amigos mortos. Um deles é aquele que em que rememora as últimas horas de Samuel Rawet (1929-1984), “sua angústia judia e imigrante”:

                        (...) Rawet morreu lendo, em sua cadeira de balanço

                        e lá ficou três putrefatos dias.

                        O gueto de Rawet era sua cadeira de balanço,

                        o menor gueto do mundo.

Ou, então, o longo poema que dedicou à memória do poeta Fernando Mendes Vianna (1933-2006), que faz lembrar Pablo Neruda (1904-1973) evocando a memória de um amigo em “Alberto Rojas Jiménez viene volando”, poema de Residencia en la tierra (Buenos Aires, Editorial Losada, 1976):

                        Por que não falas na tua última conferência?

                        Por que não gesticulas?

                        Tu, que te movias alvoroçado

                        como as pás de um motor

                        -- desligado, apenas a promessa de nau;

                        acionado, o furor dos pensamentos

                                                           em redemoinho.

                        Tu, gigante leve,

                        andavas mais perto das nuvens,

                        ao acreditar que a poesia era mitologia.

                        Que mito parou tua máquina de poetar? (...)

 

II

Como se vê, há em Costa Fernandes, como em todo bom poeta, a tentativa de reter o tempo e aquilo que se vive (ou viveu). Como se a vida fosse um filme cujas imagens pudessem ser retidas (congeladas) na memória e as pessoas pudessem ser revividas sempre que alguém acionasse uma máquina fantástica, tal como o poeta faz ao evocar no poema “La invención de Morel” a obra-prima do argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999):

                        Para onde irão as coisas acontecidas?

                        Por certo não devem estar só na memória

                        -- que é gelatinosa e tende à movediça régua,

                        que, em vez de precisão,

                        encurta o que é longo –

                        por certo devem estar paralisadas

                        -- é curvo o metro da razão –

                        em algum espaço que não acumula o que recolhe

                        nem apaga quando se desfaz,

                        nem se destrói ao morrer,

                        deve haver um cemitério de fatos,

                        lá, onde todas as coisas – esquecidas ou não –

                        perduram e se repetem.

Maranhense criado no Rio de Janeiro e radicado em Brasília, Costa Fernandes não só faz lembrar Neruda, mas também Fernando Pessoa (1888-1935) de “Tabacaria”, como se vê nos versos de “Delito do corpo”:

                        Por que certos amores

                        insistem em não envelhecer?

                        Por que alguns amores permanecem

                        como a mancha que nenhuma lavanderia apaga?

                        Não se vergam ao tempo

                        feitos de flandres humano,

                        não oxidante,

                        flébeis e olorosos

                        igual à matéria de jardinagem

                        que adubasse flores de carne? (...)

 

                        (...) Quem sabe algum dia

                        a loucura arranque

                        o que não ousa nascer,

                        o que sobrevive morto,

                        e o amor outra vez

                        se aliste na tropa do meu corpo?

                        O único crime que cometi foi a vida.

Essa marca de verdadeiro poeta Costa Fernandes já havia deixado em livros de poesia anteriores, como o livro-folheto de estréia Urbe (1975), que costuma renegar, Estrangeiro (1997), Terratreme (1998), Andarilho (2000) e Eterno passageiro (2004). Como observou Antonio Carlos Secchin no prefácio que escreveu para Eterno passageiro (Brasília, Varanda, 2004), há um lapso de 22 anos entre a estréia e a retomada poética do autor: nesse longo intervalo, ele construiu sólida carreira como romancista, tendo sido contemplado, inclusive, com o prestigioso prêmio Casa de Las Américas, por seu romance O morto solidário, traduzido e publicado em Cuba. Publicou ainda o romance Concerto para flauta e martelo (Rio de Janeiro, Editora Revan, 1997).

Ganhou vários prêmios, como o Guimarães Rosa e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Morou nove anos na Venezuela, onde dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros em Caracas. Publicou ainda o livro de contos Manual de tortura (Brasília: Esquina das Palavras, 2007) e o de ensaios A ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, 2007). Na área de ensaio, publicou também O narrador do romance (Rio de Janeiro: Editora Sete Letras, 1996), prêmio Austregésilo de Athayde da União Brasileira de Escritores (UBE), seção Rio de Janeiro.

 

III

Como mostra o currículo, Costa Fernandes é ainda fino ensaísta, como se pode ver no texto “Considerações sobre um poeta: Lêdo Ivo”, publicado na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, ano XIV, nº 56, jul.-set.2008, em que estuda com profundidade o processo poético e bibliográfico de um dos maiores poetas brasileiros do nosso tempo. Sempre acusado de prolixidade, Lêdo Ivo (1924), no dizer de Costa Fernandes, é um poeta caudaloso, sim, porque tem o que dizer, ou seja, nele o excesso é virtude, exatamente o contrário dos concretistas que sempre foram econômicos porque não teriam muito a expressar.

As escarafunchar e buscar as linhas-mestras da poesia de Lêdo Ivo, como a recorrência da imagem escuridão-noite-lua, Costa Fernandes mostra que está longe de ser um poeta intuitivo, sendo antes um poeta cerebral, que sempre soube se munir de extenso arcabouço teórico e do itinerário poético de outros grandes poetas para mais bem desenvolver o seu ofício de artesão do verso, não fosse doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB).

Ao tempo em que dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros em Caracas, diz que constatou pessoalmente o interesse do leitor hispano-americano pela poesia de Lêdo Ivo, o que o levou a promover a publicação de uma coletânea dos seus poemas traduzidos ao castelhano. E o coloca no mesmo nível de Neruda, Nicolás Guillén (1902-1989), Lezama Lima (1910-1976), Octavio Paz (1914-1998), Mario Benedetti (1920-2009) e outros que fizeram uma poesia de tradição universal, mas igualmente de cunho latino-americano. Para ele, talvez seja a conjugação de “cerebralismo” e de uma dicção robusta que leve hispano-americanos a se encantarem com a poesia de Lêdo Ivo.

Costa Fernandes segue no mesmo caminho de Lêdo Ivo: faz uma poesia antenada com a tradição universal, mas profundamente brasileira, não porque busque imagens ou temas exóticos ao olhos do leitor de fora (como aqueles quadros de borboletas que ainda se vendem em aeroportos e vendiam-se em lojas próximas ao porto ao tempo em que os turistas aqui chegavam de navio), mas porque a sua arte poética está contaminada pelo espírito terno e cordial do brasileiro comum que nada tem a ver com a violência de uma sociedade hoje refém de narcotraficantes e políticos corruptos.

 _______________________________

A MÁQUINA DAS MÃOS, de Ronaldo Costa Fernandes. Rio de Janeiro: Editora Sete Letras, 102 págs., 2009. E-mail: editora@7letras.com.br Site: www.7letras.com.br

CONSIDERAÇÕES SOBRE UM POETA: LÊDO IVO, de Ronaldo Costa Fernandes. Separata da Revista Brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, , nº 56, ano XIV, fase VII, jul.-set. 2008 

   A IMAGINAÇÃO DOS BASTARDOS
 
Como serão os anjos na velhice?
Aqui onde a queda é ascensão
não duvido da existência
do hálito de Deus.
Somos as raízes mortas
cheirando a ferro,
respirando o incenso do monóxido de carbono.
As putas recolhem entre as pernas
a espécie sutil de réptil
seco de Johntex:
o pânico feito de elástico, músculo e noite.
 
 
VESTIDO DE FERRO
 
Tudo teu é de ferro:
bolsa, armário e escova de dente.
Teu vestido de betume
brilha um céu de gesso e espessura.
 
Os sapatos caminham léguas de carmim.
 
As lixas de unha limam a aspereza
dos amores fugidios,
estes amores de lama e rosa,
que enferrujam na lixa no tempo.
 
Os carretéis de linha
não bordam a vida,
é de náilon tua costura do medo.
 
E, por fim, teus perfumes
amargam a beleza fescenina
de nunca atingir o clímax
ou preferir a rigidez do aroma.
 
 
ANIMAL BARBADO
 
Este animal que se rasura
como quem raspa a orelha do porco
para a feijoada de fim de semana,
este animal feroz e matutino,
como um auto-retrato,
como seus olhos 3 x 4,
observa a paisagem da janela
e do outro lado do vidro
está ele mesmo,
é ele a paisagem que envelhece
cada vez que a freqüenta.
Este homem ao espelho,
gilete de martírios e angústias violáceas,
barbeia seu minuto e sua morte,
exasperada e afiada servidão,
a consciência espumosa da pequena guilhotina.
OUTUBRO
 
Odeio as geladeiras
que conservam corpos esquartejados;
as agendas que escrevem à mão o futuro.
Os cães daqui de casa latem para o sol
como os lobos para a lua.
Não são duas faces da mesma moeda,
mas as duas moedas da mesma face da vida.
 
Quero ser uno e dois,
aprender com a disciplina dos becos,
lá onde a saída é a entrada.
Quero ser estático e andarilho,
aprender com a disciplina dos rios
que se movem sem sair do lugar.
 
 
 
O DESERTO
 
E vai o deserto comendo terra fértil
alargando sua plantação de grãos,
seu pasto de areia,
sua colonização de secos,
seu plantio de nada.
Na vastidão igual do arenoso,
erosão das águas e do vento,
o deserto — qual mercúrio no rio —
vai tomando o espírito
e cobre de areia tudo:
os móveis, a louça, as roupas
— bate nas janelas
                   com seu ô de casa
                   farinheiro
e, por fim, atinge o ânimo
que se esmirra, granula-se,
erode a avança a cada dia
dois palmos de vazio
que é a medida do pasmo
e o metro dos absenteístas.
 
 
MECANICISMO
 
Oh, as lavouras mecânicas,
fábricas de trigos,
usinas de legumes,
máquinas de frutas,
a lavoura artificial
dos que plantam
como que rega
                   um lírio de plástico.   

De TERRATREME


Fonte: o autor

Artigo original publicado em 19 de junho de 2009


Sobre o autor

Adelto Gonçalves é autor associado de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Este artigo pode ser reproduzido livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor e à fonte.

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AO SUL DA FRONTEIRA: 19/06/2009

 
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