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22/10/2017
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A vida de Marek Edelman, um verdadeiro resistente, é a prova de que é possível ser “judeu polaco” sem ser sionista

A morte de um resistente - Marek Edelman, o último dos moicanos


AUTOR:  Fausto GIUDICE

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


“Não queremos salvar nossas vidas. Ninguém sairá vivo daqui. Queremos salvar a dignidade humana.”
Arie Wilner (aliás, Jurek), soldado da ŻOB, Organização Judaica de Combate.
Varsóvia, abril de 1943

Em 2 de outubro de 2009 morreu Marek Edelman. Era o último combatente da insurreição do gueto de Varsóvia, em 1943, que ainda vivia e, sem dúvida, o personagem mais atraente de sua geração.

Marek Edelman nasceu em 1919, na localidade bielorrussa de Gomel. Sua família estabeleceu-se em Varsóvia durante os anos 20, depois de fugir da União Soviética, onde 12 de seus tios foram liquidados pelos bolcheviques por sua oposição ao socialismo. Seu pai, Natan Feliks, morto em 1924, simpatizava com os trudoviki, os militantes do Partido do Trabalho que se uniram ao Partido Social Revolucionário russo depois de 1917. Sua mãe, Cecylia Percowska, militava no Bund (a União Geral de Trabalhdores Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia), que era ao mesmo tempo um partido e um sindicato socialista, laico e de oposição tanto ao sionismo (Lênin qualificou os bundistas de “sionistas enjoados”) como aos bolcheviques.


Marek Edelman em 2006. Foto Slawormir  Kamiński/Agencja Gazeta

Afiliou-se, primeiro, ao Socjalistiszer Kinder-Farband, o sindicato dos meninos do Bund, antes de passar, em 1939, ao Tsukunft (Futuro), o sindicato das juventudes bundistas. Como sua mãe falecera em 1934, teve que começar a trabalhar aos 15 anos para ganhar a vida.

Em julho de 1942, na Polônia ocupada, Edelman participou da criação da OJC (Żydowska Organizacja Bojowa, a Organização Judaica de Combate), que agrupava militantes de partidos e grupos judeus de esquerda, entre eles os socialistas sionistas de Hashomer Hatzair. A União Militar Judaica (Żydowski Związek Wojskowy), criada em 1939, depois da ocupação da Polônia, por oficiais judeus do exército polonês ideologicamente próximos ao Betar – a organização dos sionistas de direita da ala revisionista de Jabotinsky – negou-se a se unir à OJC, mas seus combatentes o fizeram, e juntos iniciaram a insurreição do gueto de Varsóvia, em 19 de abril de 1943.

Marek Edelman, que dirigia o grupo de combate da fábrica de escovas, assumiu o mando dos combatentes em 8 maio de 1943, um dia depois do suicídio do comandante Mordechai Anielewicz, cercado pelos SS no bunker que a OJC mantinha no número 18 da rua Mila, considerado como o Massada do século XX. O suicídio de Anielewicz é celebrado ainda hoje com entusiasmo em Israel, mas a ação extrema foi sempre condenada por Edelman, que a considerou como um “gesto de histeria coletiva”.

Poucas horas antes da queda do gueto, em 16 de maio de 1943, Edelman conseguiu escapar com uns 15 sobreviventes dos ferozes combates que várias centenas de jovens pobremente armados enfrentaram (um fuzil para cada dez combatentes e, como arma principal, coquetéis molotov), contra 6.000 SS, soldados alemães e ucranianos armados até os dentes, que eliminaram a insurreição com lança-chamas.

Em 1944, Edelman participou à frente de um destacamento da OJC na insurreição de Varsóvia, dirigida pelo Exército Popular (Armia Ludowa), durante os combates para a libertação da cidade velha.

Obchody 60. rocznicy powstania w Getcie Warszawskim, 19 kwietnia 2004. Od lewej: Jacek Kuroń, Marek Edelman i Lechosław Goździk
Marek Edelman com Jacek Kuron e Goździk Lechosław em 19 de Abril 19, 2004. Foto Bartosz Bobkowski / AG

Depois da guerra, iniciou seus estudos de medicina em Lodz, onde trabalhou como cardiologista de 1951 a 2008. Na Polônia comunista, o Bund negara-se a integrar o Partido Comunista de Polônia, e preferiu se autodissolver “voluntariamente” em 1949.

Embora a maioria dos judeus sobreviventes da ocupação da Polônia optassem por emigrar em ondas sucessivas para Israel – depois dos pogroms de 1946 ou após a campanha antissemita lançada pelo regime frente ao movimento estudantil de março de 1968 –, Marek Edelman negou-se a abandonar a Polônia, e só viajou a Israel para visitar sua família em raras ocasiões. Sempre foi mal visto no Estado sionista, considerado como um “mau judeu”, pois o sionismo prefere honrar a memória de Mordechai Anielewicz, um militante de Hachomer Hatzair, o grupo socialista sionista surgido do escotismo judeu, que proporcionou muitos combatentes ao Palmach, a unidade de elite da Hanagah, organização clandestina sionista que deu origem ao exército israelense.


Varsóvia, 19 de abril de 2009: Marek Edelman coloca flores no monumento aos heróis do gueto

Em 1976, Edelman, que sempre se negou tanto a emigrar para Israel (“Para mim não existe um povo eleito nem uma terra prometida”, declarou certa vez) como a se afiliar ao Partido Comunista, uniu-se ao Comitê de Defesa dos Trabalhadores (KOR), núcleo fundador do sindicato Solidarnosc, o que lhe valeu uma detenção durante cinco dias durante o estado de exceção que o general Jaruzelsky decretou em dezembro de 1981. Participou ativamente no processo que conduziu ao fim do regime comunista na Polônia e, em 1991, afiliou-se à União para a Liberdade, uma das ramificações do Solidarnosc, junto com Tadeusz Mazowiecki e o historiador Bronislaw Geremek.

Tardiamente reconhecido – recebeu a Ordem da Águia Branca polonesa em 1998 e a Legião de Honra francesa em 2008 –, Marek Edelman era um homem parco em discursos e gestos. Como se considerava o “guardião das tumbas judias” da Polônia mártir, por sua iniciativa, a cada dia 9 abril, adotou o costume de depositar ramos de junquilhos diante do monumento aos heróis do gueto, depois de uma caminhada através das ruas do antigo bairro. Em 2008, em resposta às perguntas de uma jornalista israelense, que queria saber se não temia que sua morte, próxima sem dúvida, “fizesse cair no esquecimento a insurreição do gueto de Varsóvia”, declarou: “Não, aquele acontecimento deixou demasiadas marcas na história, na literatura e na arte. É em Israel onde nossa recordação corre o perigo de se perder.”

Marek Edelman era o último dos moicanos, a prova viva e rara de que é possível ser judeu polonês (ou polonês judeu) sem ser sionista.

Aqui a carta que dirigiu “a todos os chefes de organizações palestinas e militares, paramilitares ou guerrilheiras, a todos os soldados de grupos militantes palestinos” em 1° de agosto de 2002, mensagem que lhe valeu críticas ferozes dos sionistas, que reprovaram o fato de qualificar os “terroristas” palestinos como “partisans”:

“Meu nome é Marek Edelman. Sou o antigo comandante-adjunto da Organização Judaica de Combate na Polônia, um dos chefes da insurreição do gueto de Varsóvia. No memorável ano daquela insurreição, em 1943, lutávamos pela sobrevivência da comunidade judaica em Varsóvia. Combatíamos por nossas vidas, não por um território, nem por uma identidade nacional. Movia-nos uma determinação desesperada, mas nossas armas nunca se dirigiram contra populações civis indefesas, nunca matamos mulheres e crianças. Em um mundo como aquele, despojado de princípios e valores, apesar do constante perigo de morte, permanecemos sempre fiéis aos ideais.

Estávamos isolados em nosso combate e, apesar disso, o poderoso exército que enfrentávamos não conseguia vencer aqueles jovens pouco armados que éramos então. Nossa luta durou várias semanas e, depois, seguimos com ela na clandestinidade e durante a insurreição de Varsóvia, em 1944.  

Em nenhum lugar do mundo, porém, um grupo de resistentes pode alcançar uma vitória definitiva, e em nenhuma parte uma guerrilha pode ser vencida pelos exércitos regulares, por mais bem equipados que estejam. Sua guerra tampouco tem solução. O sangue será derramado em vão e vidas se perderão em ambos os lados.

Nós nunca depreciamos a vida. Nunca enviamos nossos soldados para uma morte certa. A vida é eterna. Ninguém tem o direito de acabar com ela. Já é hora de o mundo compreender.

Olhem ao redor. Vejam a Irlanda. Depois de 50 anos de uma guerra sangrenta, a paz chegou. Antigos inimigos mortais sentaram em torno da mesma mesa. Olhem o que ocorre na Polônia, Walesa e Kuron. Sem grande dificuldade, o criminoso sistema comunista desapareceu. Do mesmo modo, vocês e o Estado de Israel devem mudar radicalmente de atitude. Devem fazer as pazes para salvar centenas e, talvez, milhares de pessoas, para oferecer um futuro melhor a seus entes queridos, a seus filhos. Sei, por experiência, que tal como se apresentam os acontecimentos, isso depende dos chefes militares. A influência dos atores políticos e civis é muito menor. Alguns de vocês estudaram na Universidade de minha cidade, Lodz, e me conhecem. Acredito que sejam bastante sábios e inteligentes para compreender que, sem paz, não haverá futuro na Palestina e que a paz só pode ser alcançada através de concessões dos dois lados.

Peço também ao [ex] Presidente Bill Clinton, ao ministro Bernard Kouchner e ao deputado Daniel Cohn-Bendit que apóiem meu pedido. Quero recordar-lhes de nossa posição comum em relação à guerra na Iugoslávia. Quem sabe se esta guerra, a guerra que ninguém pode ganhar, poderia ser detida para que fosse substituída por porta-vozes capazes de chegar a um acordo.  

Talvez devêssemos buscar um mediador que não seja um político, mas, sim, uma personalidade com autoridade moral incontestável, alguém que coloque a vida com dignidade e paz para todos acima de qualquer objetivo político”.


Foto Alik Keplicz / AP

Fotos do enterro de Marek Edelman, em 9 de Outubro, em Varsóvia. Clique nas imagens para ampliá-las.
Fotos Adam Kozak / Agencja Gazeta. Fonte:
http://miasta.gazeta.pl/warszawa/51,95190,7126259.html?i=0

Muzyka sprawiała że do konduktu spontanicznie dołączali się warszawiacy

Muzyka sprawiała że do konduktu spontanicznie dołączali się warszawiacy - miniatura Pogrzeb Marka Edelmana - miniatura Marek Edelman - miniatura Zmarłego żegnali rodzina, przyjaciele, politycy i dwa tysiące warszawiaków - miniatura Joanna Szczepkowska - miniatura Aleksander Smolar - miniatura Uroczystości pod Pomnikiem Bohaterów Getta - miniatura Adam Michnik - miniatura

Wśród zgromadzonych Lech Wałęsa - miniatura Tadeusz Mazowiecki - miniatura Przed Pomnikiem Bohaterów Getta - miniatura Uroczystości pogrzebowe odbyły się na cmentarzu żydowskim - miniatura Kondukt pogrzebowy - miniatura Tutaj, w kwaterze 12. Cmentarza Żydowskiego, pochowany został Marek Edelman. Na zdjęciu - po prawej w głębi - widać pomnik działaczy socjalistycznych żydowskich organizacji Bund i Cukunft, którzy walczyli w powstaniu w warszawskim getcie. Na lewo od pomnika znajdują się dwa symboliczne groby powstańców z getta: Michała Klepfisza i Abraszy Bluma. Obaj zginęli w 1943 r. - miniatura  

    Uroczystości pogrzebowe Marka Edelmana pod pomnikiem bohaterów Getta - miniatura Uroczystości pogrzebowe Marka Edelmana pod pomnikiem bohaterów Getta - miniatura Uroczystości pogrzebowe Marka Edelmana pod pomnikiem bohaterów Getta - miniatura Kondukt pogrzebowy na ulicy Anielewicza - miniatura Kondukt pogrzebowy podczas pogrzebu Marka Edelmana - miniatura

Kondukt pogrzebowy podczas pogrzebu Marka Edelmana - miniatura  Uroczystości pogrzebowe Marka Edelmana pod pomnikiem bohaterów Getta - miniatura  

 


Fonte: Basta ! Journal de marche zapatiste-Marek Edelman, le Dernier des Mohicans – La preuve qu’on peut être ‘juif polonais’ sans être sioniste


Artigo original publicado em 5 de outubro de 2009

Tradução redigida em português do

Sobre o autor

Fausto Giudice e Omar L. de Barros Filho são membros de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade linguística. Omar L. de Barros Filho, que traduziu para o português, é editor de ViaPolítica. Esta tradução pode ser livremente reproduzida, na condição de que integridade seja respeitada e mencionados o autor, tradutores e fontes.


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CRÔNICAS TLAXCALTECAS: 12/10/2009

 
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