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24/10/2017
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Entrevista com o escritor espanhol Manuel Talens no 92º aniversário da Revolução de Outubro

“A Revolução russa foi a prova tangível que necessitavam os párias da Terra para estarem seguros de que o sonho de Marx não era irreal”


AUTOR:  Salvador LÓPEZ ARNAL

Traduzido por  Alexandre Leite


A Revolução de Outubro foi desde o seu primeiro momento uma referência do movimento operário internacional e internacionalista e das organizações socialistas que não claudicaram frente ao belicismo e às ânsias de conquista dos poderosos da Terra. Referência celebrada, para além disso. Os actos que se organizavam em homenagem a essa data gloriosa, o 7 de Novembro, estão na memória de muitos lutadores revolucionários. Desde a desintegração da URSS, desde o triunfo da contra-revolução capitalista (selvagem) na terra de Gorki e Maiakovski, também aqui, nesta página avermelhada, habita o esquecimento, um esquecimento injusto e suicida. Para recordar esta data, para falar do significado daquela revolução socialista, conversámos com o escritor, cientista, tradutor e militante Manuel Talens.

*     *     *

 

Relembravas-me não há muito tempo, que a tua primeira novela, A parábola de Cármen, a Rainha, finalizava com as seguintes palavras:

“[Em Artefa, uma minúscula povoação das Alpujarras, ouvem-se os trompetes do Apocalipse]...

María Espinosa encontrava-se no curral, deitando alpista às galinhas; havia sonhado que José Botines lhe declarava o seu amor acariciando-a com palavras quentes à luz da candeia, e acordou com o ânimo tão alegre que se esqueceu de abrir a janela para ventilar o quarto, e não deu conta que o azul estava coberto por umas nuvens carregadas que acabavam de se instalarEs posible que tu navegador no permita visualizar esta imagen. lentamente durante a noite; mas levantou o olhar ao sentir que o seu cabelo de neve se começava a molhar, e então viu a luz de um raio a cair sobre a cruz do campanário; meteu-se pelo lado esquerdo da sua casa até chegar à praça, com os tímpanos quase a rebentarem por causa dos trompetes; cheirava a pólvora queimada e as chamas chispavam ao sair pelas janelas da igreja; estava já a dois passos da morte, e no entanto acreditou ouvir o som do troar do princípio de uma nova esperança; era 7 de Novembro do ano de 1917, e nesse mesmo instante as hordas libertadoras saltaram por cima das barricadas ao compasso do sétimo e último trompete, avançando vitoriosas por entre o fumo opaco dos canhões para entrar a saque no Palácio de Inverno…” 

Deixa-me que te pergunte precisamente em torno desse 7 de Novembro, quase um século depois. Falavas aqui de uma nova esperança, de hordas libertadoras. O que se passou, pois, a 7 de Novembro de 1917? Por que acreditas que representou uma nova esperança para as classes trabalhadoras de todo o mundo?

Visto que a tua pergunta mistura ficção com realidade, o que é algo muito do meu agrado e que costumo praticar como narrador, em primeiro lugar vou acrescentar um pouco de contexto a essa data extemporânea da minha novela, para situar o leitor. A parábola de Cármen, a Rainha passa-se na região montanhosa das Alpujarras granadinas, esse cantinho da Andaluzia de onde provém a minha família materna, e fala sobre a luta de classes numa aldeia imaginária, Artefa, ao longo de todo o século XIX e princípios do XX. A meticulosa coincidência das datas entre o desenlace apocalíptico dos acontecimentos em Artefa e o assalto ao Palácio de Inverno – que precedeu o nascimento da URSS – não é por acaso, mas sim um recurso retórico com o que pretendo homenagear esse acontecimento histórico fundamental que foi a Revolução de Outubro.

Quanto ao 7 de Novembro, devo esclarecer que a Rússia czarista se guiava pelo antigo calendário juliano, diferente do gregoriano que hoje se usa em todo o lado. Isso fez com que a data do triunfo dos sovietes, dia 25 de Outubro segundo o calendário pré-revolucionário, coincidisse com o dia 7 de Novembro gregoriano. Daí vem a aparente contradição temporal de uma Revolução de Outubro que se celebra em Novembro.

Posso acrescentar que a recém nascida União Soviética adoptou o calendário gregoriano de imediato, mas não deixou por isso de aludir à sua revolução como culminada no mês de Outubro. Mais tarde, o inesquecível filme de Eisenstein fixou para sempre essa confusão. O mundo é hoje tão globalizado e uniforme que estas discrepâncias parecem ilógicas, mas naqueles tempos, não tão longínquos, o normal era o contraste entre países e culturas, não a semelhança. Esclarecido isto, voltemos à tua pergunta.

Sobre o 7 de Novembro de 1917 e a sua importância histórica escreveram-se toneladas de páginas e o que eu possa acrescentar agora nesta entrevista não é mais que a insignificante opinião pessoal – sem o propósito de convencer ninguém – de alguém que sempre considerou aqueles feitos com olhos benevolentes. Peço desculpa, pois, de antemão, se os meus comentários não estiverem à altura.

A Revolução russa foi a segunda da história, mas a primeira que foi ganha pelo proletariado, pois a francesa – de carácter burguês – deixou intacta a propriedade privada capitalista dos meios de produção como sistema económico imperante. Pelo contrário, a Revolução russa foi a prova tangível que necessitavam os párias da Terra para estar seguros de que o sonho de Marx não era irreal. Como é que não iria representar o princípio de uma nova esperança? O capitalismo explorador desta vez não continuou em pé, mas foi sim substituído pelo comunismo, belíssimo conceito apesar de toda a desinformação que sofreu durante mais de um século, e esse comunismo significava a igualdade no desfrutar dos bens terrenos.

Que em última instância aquele edifício se derrubasse sete décadas depois não torna menos sublime a sua construção. Confirma-nos afinal que os sonhos, uma vez realizados, necessitam de mimo e de luta diária durante toda a vida para que não se extingam.

Então, o comunismo, esse belíssimo conceito segundo as tuas palavras, seria a “igualdade no desfrutar dos bens terrenos”

Claro, trata-se de um conceito básico do materialismo histórico, que sai da sociedade sem classes e da propriedade pública dos meios de produção. O paraíso, se é que existe, está aqui em baixo e não tem por que ser só para uns poucos, mas sim para todos. A isso se chama compartir, o que é alheio à natureza do capitalismo. A mensagem evangélica do cristianismo é exactamente igual à do comunismo, salvo que se adentra no terreno do pensamento mágico para fantasiar um hipotético desfrute igualitário no além.

Referiste-te a um filme de Eisenstein. A qual concretamente?

A Outubro, uma maravilha do cinema mudo, dedicada aos proletários de Petrogrado, que Eisenstein filmou em 1927 para celebrar o décimo aniversário da revolução. Muitos dos combatentes que tinham participado na luta real representaram os seus próprios personagens no filme, o que é um detalhe histórico nada desdenhável, para além da mestria que nele demonstrou aquele extraordinário cineasta que foi Eisenstein. Está disponível na internet, ainda que conforme passa o tempo cada vez são menos aqueles ainda capazes de apreciar uma narração fílmica como as de então, em estado puro, sem diálogos.

Já  se afirmou, e costuma aparecer nas análises não afáveis, que a Revolução russa foi mais um golpe de mão dos bolcheviques do que outra coisa. Que te parece esta apreciação?

Aqui entramos em pleno terreno da propaganda, cujo objectivo não é outro que a desinformação. É evidente que todo o cometimento revolucionário traz colado como uma lapa o reescrever da história por parte do adversário. Temos exemplos muito próximos: Cuba anda há cinco décadas a aguentar calúnias e, quanto à Venezuela, não passa um dia sem que a imprensa privada ocidental afirme que qualquer coisa que seja feita pelo governo de Hugo Chávez está mal. Há que aprender a viver com esse obstáculo, que neste momento parece insolúvel.

Isso do suposto golpe de mão dos bolcheviques não resiste à menor análise, é  um insulto à inteligência. Baseia-se na falsidade semântica de que toda a revolução é um estado de confusão e desordem, sem tácticas pré-concebidas de combate, que termina por asfixiar a ordem legal como passo prévio ao caos. Com uma premissa tão trapaceira torna-se fácil deduzir o sofisma de que o assalto ao Palácio de Inverno – a última escaramuça revolucionária, um prodígio de táctica militar – foi um golpe de mão de várias centenas de intrépidos bolcheviques, que acabaram por pescar num rio agitado.

Trata-se sem dúvida de uma tese redutora ad infinitum, que faz intencionalmente uma abstracção de todo o processo revolucionário anterior, que tinha forçado em Março a abdicação do czar Nicolau II e a formação de um débil governo provisório da burguesia capitalista. Essa tese, para além do mais, deixa implícito que Petrogrado (São Petersburgo) estava sob controlo dos sovietes e, ainda por cima, ignora a inteligência de Lenine como cabeça pensante na hora de mover as peças daquele tabuleiro de xadrez.

É algo parecido com pretendermos esquecer que Fidel Castro e a guerra de guerrilhas que se iniciou a partir da Sierra Maestra para nos centrarmos apenas na batalha final de Santa Clara – outro prodígio de táctica militar – que deu o triunfo final à Revolução cubana. Quem é que no seu juízo perfeito diria hoje que isso não foi mais do que um golpe de mão de Che Guevara? É absurdo, puro engano.

Falavas há  pouco da inteligência de Lenine. Onde reside ela? No seu atrevimento? Na sua coragem? Nas suas análises políticas pouco usuais? Na sua heterodoxia? Houve um Lenine anterior e um Lenine posterior à revolução?

Em geral, os grandes líderes políticos ou militares que marcaram a História, quer para o bem quer para o mal, quer falemos de Alexandre Magno, Júlio César, Gengis Kan, Fernando Cortês, ou neste caso Lenine, são seres de inteligência superior, valentes até ao indizível, e de uma capacidade estratégica fora do comum.

Naturalmente, essa capacidade não é um mérito em si mesmo, mas sim o dedicá-la em exclusivo a uma tarefa tão nobre e altruísta como a melhoria do género humano. Lenine – tal como Fidel, Ho Chi Min ou Nelson Mandela – faz parte dessa escassa galeria de seres irrepetíveis. Com isto creio ter respondido às cinco primeiras interrogações que me apresentas na tua pergunta.

E, quanto à última, parece-me inquestionável que houve uma mudança entre o líder que preconizava a luta revolucionária e o estadista que foi depois, a seguir à tomada do poder. Mas isso é normal, porque as circunstâncias em ambos os períodos eram radicalmente distintas. Um dos exemplos desta evolução foi o diferente papel, cada vez maior, que foi designado ao Partido. De ser, no princípio, uma entidade dedicada à educação popular para que as massas pudessem aceder à vanguarda do proletariado, passou a converter-se na batuta que exercia o poder. Não deixa de ser um triste paradoxo que Estaline aproveitasse depois esta particularidade para legitimar os seus crimes.


A educação popular: “O livro é a tua melhor companhia, instrui-te” 
(Cartaz soviético, até 1919)
 

As grandes potências da atura - Inglaterra, França, EUA também – que atitude tomaram perante os novos acontecimentos? Deixaram-nos respirar?

A atitude desses países, como era de esperar, foi de total hostilidade. A passagem do capitalismo ao socialismo não é algo que possa ficar impune no concerto das nações, porque supõe a perda de um mercado e, ao mesmo tempo, a possibilidade de que outros povos se contagiem com o vírus da revolução. Inglaterra, França, EUA e também Japão, Canadá, Checoslováquia e Alemanha, entre outros países, apressaram-se a financiar os exércitos de mercenários nacionalistas, czaristas, anti-comunistas e conservadores na guerra civil que estalou na URSS em 1918 e que confrontou o exército vermelho com o denominado exército de “russos brancos”, isto é, o pior do pior naquela sociedade, uma espécie de gusanera [cubanos de Miami] avant la lettre. Mas aquela tentativa contra-revolucionária fracassou.

O curioso – ou talvez nem tanto – é que essa atitude hostil das nações persiste na actualidade: a menor tentativa de qualquer país ou continente de mudar as regras do jogo por outras mais justas leva sempre a mesma resposta. A América Latina sabe isso muito bem por experiência própria. As Honduras não são mais que o último exemplo de uma longa lista de intervenções contra-revolucionárias incitadas do exterior.

Lenine morreu em pouco tempo, em 1924. Disse-se muitas vezes que morreu deprimido, abatido perante o desenrolar dos acontecimentos, não só pelas dificuldades do processo, mas também pelas atitudes de alguns dos seus camaradas. Parece-te uma conjectura razoável?

Pessoalmente, esse argumento parece-me uma solene intrujice, mais uma entre as muitas que se inventaram por não aceitarem o que para o capitalismo é inaceitável: que Lenine era incombustível, como Mandela, como Fidel, como provavelmente o será Chávez. Quando a reacção não pode com alguém, tenta denegri-lo. Também se disse que morreu de sífilis. E que importa se uma pessoa morre de sífilis, de um acidente vascular cerebral ou de um trambolhão? Será tão difícil admitir que Lenine morreu porque chegara a sua hora? É ridículo inventar uma depressão tardia em alguém que sobreviveu à prisão, às deportações, ao exílio e a todo o tipo de azares sem se desviar do caminho que tinha traçado de antemão.

De qualquer forma, não pretendo com isto sugerir que Lenine fosse insensível ao sofrimento. Ninguém o é.

Por que acreditas que o processo tomou, ao fim de poucos anos, uma via tão autoritária?

Essa é a parte mais dolorosa da URSS, porque convida a que se pense no que ela poderia ter sido sem Estaline no panorama, sem o desgaste da Segunda Guerra Mundial e sem a corrida armamentista na qual o país se empantanou durante a guerra fria. É como imaginar um destino diferente para Espanha se Franco nunca tivesse existido. O problema é que a história não permite fazer marcha atrás para rectificar os erros.

O certo – e terrível – é que Estaline foi um cancro não apenas para a União Soviética, como para a própria ideia do comunismo como horizonte. E os que o sucederam, salvo talvez Kruschev, foram as metástases tardias de Estaline, que acabaram por arrasar a herança de Lenine. Mas o comunismo não é isso. Por sorte, a Cuba solidária está há cinquenta anos a mostrar-nos a face bonita e compassiva do comunismo.

Acabas de citar Kruschev. E como foi possível que aquela tentativa de renovação, aquela auto-crítica do estalinismo do XX Congresso, que tantas e tantas esperanças desencadeou de novo, não desse os seus frutos ou que estes durassem tão pouco?

Não sou nenhum kremlinólogo nem nada que se pareça, de modo que apenas posso interpretar o que me sugere o meu olfacto. Creio que o XX Congresso chegou demasiado tarde. Se Estaline tivesse sido flor de um dia tudo se poderia ter remediado, mas não há revolução que resista a vinte e nove anos de crimes, abusos e terror, por muito que simultaneamente faça coisas dignas de elogio. Considero que Kruschev não conseguiu extirpar totalmente o cancro do estalinismo e, em consequência, este não tardou a reproduzir-se.

Há uns anos contaram-me em Moscovo uma história preciosa sobre Kruschev, que plasmei num conto. Lembra-me para te enviar essa passagem.

(Dias depois, Manuel Talens teve a gentileza de me enviar o texto e a foto que aqui reproduzo):

[…] Foi assim que no dia seguinte me mostrou o cemitério de Novodevichi. As veredas ajardinadas estavam cobertas de neve. Vagueamos por entre as lápides e não pude resistir à velha tentação de monologar com ela, desta vez sobre os personagens célebres que ali estão enterrados e dos quais sabia alguma coisa. Escutava-me atenta e a seu olhar ia-se tornando brincalhão. Chegámos à sepultura de Kruschev. Então foi Mei-Ling que abriu os lábios para me dizer que o antigo presidente da URSS não está no Kremlin porque morreu longe do poder. Seguidamente, pela primeira vez desde que a conheço, dirigiu-me mais de cem palavras seguidas. Soube que o mausoléu é obra de Ernst Neizvestny, um escultor que Kruschev havia mandado chamar nos seus tempos de primeiro-secretário do PCUS para o recriminar violentamente dizendo que a sua arte lhe parecia contrária aos ideais do socialismo e que o então jovem artista, em vez de se amedrontar, respondeu-lhe que ele poderia ser o camarada secretário que quisesse, mas que de escultura não sabia absolutamente nada. Ao que parece, depois de cair em desgraça, Kruschev mandou chamar o escultor e ambos estabeleceram uma certa amizade, de tal maneira que no testamento deixou escrito que fosse ele que esculpisse o seu monumento funerário. Neste, de ambos os lados do rosto realista do antigo dirigente, há duas grandes figuras angulares abstractas, uma em mármore branco e outra em preto, que segundo me confessou Mei-Ling simbolizam duas orelhas. 
 
No final da sua vida – acrescentou como conclusão – Kruschev tinha aprendido a ouvir. […]
 


Sepultura de Nikita Kruschev, cemitério de Novodevichi (Moscovo) 

É provável que a União Soviética se tenha desintegrado porque os seus dirigentes eram autistas, não ouviam ninguém.

Mas não queria dar a impressão de que tudo na trajectória da URSS me parece negativo. Na lembrança ficará sempre a ajuda que prestou à República espanhola durante a nossa guerra civil, o heroísmo do povo soviético na Segunda Guerra Mundial (ambas as coisas durante o mandato de Estaline, também é preciso dizê-lo) e o seu apoio constante e incondicional a Cuba até ao último suspiro.

Para além disso, nos anos oitenta houve várias tentativas de rectificação de rumo. Primeiro com Andropov, que não era nenhum estúpido, e depois com Gorbachov e a perestroika. Qual é a tua opinião sobre estas novas tentativas?

Nenhum dos dirigentes que sucederam a Kruschev era estúpido, mas suponho que também nenhum deles acreditava como é preciso acreditar – com uma convicção inquebrantável – na sobrevivência do legado da revolução. Não sinto a menor simpatia pela sua memória.

O último, Gorbachov, foi uma espécie de Adolfo Suárez soviético a quem o azar o catapultou de improviso para um lugar inesperado: de austero servidor do aparelho viu-se reconvertido em frívolo democrata televisivo ao estilo ocidental. Sem dúvida fez o que pôde, tentou abrir a janela para que entrasse ar fresco, mas a URSS estava já moribunda. Um cancro não se cura com panos quentes e a Gorbachov coube o ingrato papel de assistir como espectador a uma agonia que se precipitava com o seu pesar, alheia a qualquer tratamento.

Há uma canção de Jacques Brel, “J’arrive”, que expressa bem a impotência que Gorbachov deve ter sentido conforme a situação se lhe ia escapando das mãos: C’est même pas toi qui es en avance, c’est déjà moi qui suis en retard. E chegou o inevitável, um dia apareceu Iéltsin – arrivista, mentiroso, ladrão, borrachão e traidor – e deu-lhe o golpe de misericórdia.

Referiste-te já em dada altura à aresta da guerra fria. Volto a ela. A guerra fria, que sempre foi muito quente para o Ocidente belicista e que teve a intencionalidade de afogar a URSS desde um primeiro momento, não terá deixado muito pouca margem de manobra? Naquelas condições marcadas, eram possíveis, de facto, outros caminhos?

Em casos como o da URSS, a minha avó costumava dizer que “entre todos a mataram e ela sozinha se matou”. Que dúvida fica de que os ianques tiveram muito a ver com aquela louca corrida armamentista e com a estúpida competição espacial que EUA e URSS mantiveram durante décadas.

Posso entender que Washington gaste somas ingentes (que não possui) na conquista do espaço, porque ao fim e ao cabo é um império colonialista e invasor e o seu avultado número de cidadãos pobres e sem assistência médica importam-lhes pouco. Mas o que não entendo nem poderei entender é que a URSS aceitasse o repto de atirar pela valeta milhares de milhões de rublos em sputniks, viagens espaciais e demais asneiras, enquanto os seus cidadãos passavam dificuldades nas diferentes repúblicas. Qualquer dona de casa sabe o que são as prioridades e nenhuma no seu perfeito juízo se lembraria de comprar um Rolls Royce se faltasse aos seus filhos um copo de leite. Os dirigentes do Kremlin, lamento dizê-lo, optaram por comprar o Rolls Royce. Aqueles delírios de grandeza drenaram recursos que se deviam ter dedicado ao bem-estar do povo soviético, em vez de os desbaratar assim.

Não estou metido nesse mundinho, isto que digo é só a minha opinião de espectador: ignoro qual seria a margem real de manobra de Moscovo e se na verdade foi necessário aceitar o convite armamentista – que era uma fuga para a frente, em direcção à ruína – em vez de se terem contentado em organizar a defesa dos possíveis ataques norte-americanos. Mas parece-me que as políticas imperiais, ainda que sejam impostas a partir do exterior, não deveriam ter cabimento num Estado revolucionário.

Salvas as necessárias distâncias, muito mais lógico me parece o que faz Cuba: dedica os seus escassos recursos económicos a fabricar vacinas, formar médicos, professores e trabalhadores sociais, que depois coloca à disposição dos seus países irmãos.

A URSS desintegrou-se em 1991. Que elemento acreditas que foi mais decisivo para o seu colapso?

Ao acosso constante de Washington há que acrescentar os próprios erros de Moscovo: a perda dos ideais, a perpetuação de uma burguesia do Partido alheia à realidade quotidiana do povo soviético, a ruína económica e moral, a corrupção enquistada a todos os níveis. É o pão nosso de cada dia, nada que não conheçamos nas democracias bipartidárias ocidentais. Espanha é um bom exemplo de tal decadência.

A voz narrativa dessa minha novela que citaste há pouco, logo depois das palavras que reproduziste e antes do seu final, acrescenta: “sem dúvida os homens foram criados para ser brevemente livres no instante das batalhas, voltando à escravidão quando seguravam a vitória com as mãos”. Quem sabe se esse é o nosso destino: tentar, fracassar, tentar outra vez, fracassar de novo e assim sucessivamente, sem nos conformarmos nunca com o fracasso. Sou um pessimista activo, cheio de optimismo.

Tentar, fracassar e voltar a tentar, dizes. Ir para batalhas que se sabem perdidas, guerrear para perder e voltar a guerrear. Não é tudo um pouco absurdo? Não é o panorama que assinalas literariamente brilhante, mas politicamente inviável? Não subjaz aqui uma filosofia da história não apenas pessimista-optimista mas antes, digamos, romântica?

Volto a Lenine: dois passos para trás, um para a frente. Pura praxis. O absurdo seria renunciar. Não há nada de romântico nesta maneira de pensar. O romantismo deixa-me frio.

Vendo nessa perspectiva, desde a nossa posição actual, e tendo em conta os dez ou mais anos de capitalismo selvagem na Rússia após a queda da União Soviética, acreditas que valeu a pena aquele 7 de Novembro? Acreditas que os movimentos libertadores da Terra devem continuar a ver nessa data uma referência? Em definitivo, devemos continuar a reconhecermo-nos nessa revolução?

Sim, valeu a pena. O critério para valorizar os feitos que povoam a história não deveria ser nunca o seu êxito ou o seu fracasso, mas sim a bondade ou maldade da sua essência. E a essência daquela revolução, que se fez para melhorar a sorte dos famélicos da Terra – gosto de reivindicar A Internacional – foi boa.

O capitalismo selvagem na Rússia actual criou multi-milionários da noite para o dia. Isso é o que aparece nos títulos da imprensa ocidental, enquanto nas letras pequenas das páginas interiores nos mostram a outra face, muito mais sinistra: que entre 1990 e 2008 a esperança de vida dos russos – um dado que mede a qualidade de vida e resume a taxa de mortalidade para todas as idades em ambos os sexos – baixou de 69 para 65 anos. Esses 4 anos de diferença parecem pouco, mas são a expressão estatística de uma tragédia humana de proporções descomunais.

Quanto a se nos devemos reconhecer na Revolução de Outubro, não saberia dizer-te. Não gosto da nostalgia, porque o passado nunca foi melhor. Prefiro analisar friamente os factos históricos para ficar com o que têm de positivo, mas sem esconder o negativo. Para além disso, hoje as coisas são muito distintas e, pelo menos por agora e em determinadas circunstâncias sociais, torna-se possível utilizar como alavanca o sistema eleitoral da democracia para fazer a revolução através do voto, sem o uso das armas. Ainda que seja muito mais complicado, claro, porque o voto não permite neutralizar por completo o inimigo, que permanece agachado por perto.

Deixa-me finalizar com uma pergunta sem nostalgia. Como concebes o socialismo do século XXI? Que territórios te parecem mais férteis para a sua conquista?

Pois também para finalizar, e antes de te dar o meu parecer sobre o socialismo do século XXI, digo-te que me encantei por dissertar contigo sobre assuntos tão extemporâneos e fora de lugar no discurso actual como são o marxismo e a revolução de Outubro. E encanta-me, para além disso, que esta conversa se publique, porque hoje em dia se torna francamente heterodoxa, o que não deixa de ser uma virtude no meio de tanto electroencefalograma ideológico plano [risos]. A pós-modernidade, tu sabes bem isso, fez estragos nos partidos tradicionais da esquerda e no pensamento político das sociedades contemporâneas, e o simples facto de falar sobre estas coisas soa, no mínimo, a ficção científica. O que é que se pode fazer!

Termino: o socialismo do século XXI concebo-o falado em espanhol e não precisamente no nosso país, mas sim na América Latina. Lá em baixo está o futuro da humanidade, se é que esta tem futuro. Nós não veremos o seu culminar, mas já começou. De facto, a sua semente foi plantada oficialmente a 8 de Janeiro de 1959, quando os barbudos entraram em La Habana. Sem Cuba e o seu teimoso exemplo de resistência durante cinco décadas, o socialismo do século XXI hoje não seria sequer imaginável. Agora só falta que pelo menos um dos três gigantes latino-americanos – México, Brasil ou Argentina – encontre e eleja um Chávez, um Evo ou um Correa à sua medida para que a máquina desse comboio comece a ganhar velocidade e seja já imparável. É questão de tempo. Nesse dia, se o chegar a presenciar, serei feliz. 

 

Um sonho que não era irreal…
“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversas maneiras. 
O importante é, no entanto, mudá-lo.”
(Sepultura de Karl Marx no cemitério de Highgate, em Londres, cortesia de Patricio Suárez)




Fonte: Rebelión e Tlaxcala

Artigo original publicado a 6 de novembro de 2009

Este artigo é para português de

Sobre o autor

Salvador López Arnal e Manuel Talens som membros de Rebelión. Alexandre Leite é Manuel Talens som membros de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores e à fonte.

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TEMPESTADE CEREBRAL : 06/11/2009

 
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