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17/12/2017
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Porque está o sangue nas nossas mãos?

Terramoto no Haiti: Fabricado nos EUA


AUTOR:  Ted RALL

Traduzido por  Alexandre Leite


À medida que foram chegando os macabros relatos do terramoto no Haiti, as notícias nos meios de comunicação controlados pelos EUA todas traziam uma frase descritiva: "O Haiti é o país mais pobre do hemisfério Ocidental..."

Chiça, pergunto-me como é que isso terá acontecido?

Seria de imaginar que o Haiti fosse podre de rico. Afinal, fez a fortuna de muita gente.

Como é que o Haiti ficou tão pobre? Apesar de um século de colonialismo americano, ocupação, e apoio de ditadores corruptos? Mesmo tendo a CIA encenado golpes de estado contra todos os presidentes democraticamente eleitos que já tiveram?

É uma questão importante. Um terramoto não é só um terramoto. O mesmo simso de 7.0 em São Francisco (EUA) não mataria tantas pessoas como em Port-au-Prince.

"Olhando para as imagens, parece essencialmente que os edifícios são feitos de tijolos ou de blocos de cimento, e o que é preciso em zonas de terramotos são vigas de metal que unam os blocos para que eles se mantenham juntos quando há o sismo," nota Sandy Steacey, directora do Instituto de Investigação de Ciências Ambientais da Universidade do Ulster na Irlanda do Norte. "Num país próspero com boa construção anti-sísmica, haveria alguns danos, mas não muitos."

Quando um monte de blocos de cimento cai em cima de uma pessoa, as hipóteses de sobrevivência não são muitas. Mesmo que miraculosamente sobreviva, um país pobre como o Haiti não tem o equipamento, as infra-estruturas de comunicação ou o pessoal de serviço de emergência para retirar as pessoas dos escombros a tempo. E se os vizinhos a ajudarem a sair, não há ambulâncias para a levar para o hospital, ou médicos para a tratar quando lá chegar.

Favela Haiti
Fotografia:REUTERS/Carlos Barria

Os terramotos são acontecimentos aleatórios. A quantidade de pessoas que morre é pré-determinada. No Haiti, esta semana, não deitem as culpas para cima das placas tectónicas. Noventa e nove por cento das mortes podem ser atribuídas à pobreza.

Por isso a questão é relevante. Como é que o Haiti se tornou pobre?

A história começa em 1910, quando o consórcio Departamento de Estado dos EUA - Banco Nacional da Cidade de Nova Iorque (agora chamado Citibank) comprou o Banco Nacional do Haiti – o único banco comercial do Haiti e o seu tesouro nacional - transferindo de facto as dívidas do Haiti para os americanos. Cinco anos depois, o Presidente Woodrow Wilson ordenou o envio de tropas para ocuparem o país de modo a deitarem um olho no “nosso” investimento.

De 1915 a 1934, os Marines dos EUA impuseram uma dura ocupação militar, assassinaram patriotas haitianos e desviaram 40 por cento do Produto Interno Bruto do Haiti para os banqueiros dos EUA. Os haitianos foram banidos de cargos governamentais. Haitianos ambiciosos foram colocados no exército fantoche, montando o cenário para uma ditadura de meio século apoiada pelos EUA.

Os EUA mantiveram o controlo das finanças do Haiti até 1947.

Sendo assim, de que se queixam os haitianos? Sim, nós roubámos 40 por cento da riqueza nacional do Haiti durante 32 anos. Mas deixámos 60 por cento para eles.

Choramingas.

Apesar de quase ter sido abafada pelos banqueiros e generais americanos, a desordem civil permaneceu até 1957, quando a CIA instalou o Presidente-Vitalício François "Papa Doc" Duvalier. Os brutais esquadrões paramilitares de Duvalier, os Tonton Macoutes, assassinaram pelo menos 30,000 haitianos e forçaram as pessoas com habilitações a fugirem para o exílio. Mas vejam isto como um copo meio cheio: menos pessoas na população significa menos competição pelos mesmos trabalhos!

Aquando da morte de Papa Doc em 1971, o testemunho foi passado ao seu filho de 19 anos ainda mais devasso, Jean-Claude "Baby Doc" Duvalier. O esfriamento de relações dos EUA com Papa Doc nos seus últimos anos, rapidamente aqueceu com o seu herdeiro playboy cleptomaníaco. Enquanto os EUA despejaram armas e treinaram o seu exército como um suposto baluarte anti-comunista contra a Cuba de Castro, estima-se que Baby Doc tenha roubado entre 300 a 800 milhões de dólares do tesouro nacional, de acordo com a Transparency International. O dinheiro foi posto em contas pessoais na Suíça e noutros locais.

Sob a influência dos EUA, Baby Doc praticamente eliminou as taxas de importação de produtos dos EUA. Em pouco tempo o Haiti viu-se afogado em importações agrícolas predatórias despejadas por empresas americanas. Os produtores locais de arroz foram à falência. Uma nação que era auto-suficiente em termos agrícolas colapsou. As plantações foram abandonadas. Centenas de milhares de agricultores migraram para as atulhadas favelas de Port-au-Prince.

A era de Duvalier, 29 anos no total, chegou ao fim em 1986 quando o Presidente Ronald Reagan deu ordem às forças dos EUA para levarem rapidamente Baby Doc para o exílio na França, salvando-o de uma revolta popular.

Mais uma vez, os haitianos deveriam estar agradecidos aos americanos. O Duvalierismo foi um "amor à bruta." Forçar os haitianos a fazerem a sua vida sem o seu tesouro nacional foi uma forma simpática de os encorajar a trabalhar mais, de os levantar pelas orelhas...

E tem sido um amor à bruta desde sempre. Os EUA destituíram duas vezes o populista e popular presidente Jean-Bertrand Aristide, democraticamente eleito. Na segunda vez, em 2004, ainda lhe oferecemos um voo gratuito para a República Centro Africana! (Ele diz que a CIA o raptou, mas isso não interessa.) É que ele precisava de descansar. E foi simpático da nossa parte apoiar um novo governo formado por antigos Tonton Macoutes.

No entanto, apesar de tudo o que fizemos pelo Haiti, eles ainda são um estado falhado do  quarto mundo que fica perto de uma falha geológica.

E mesmo assim, nós não desistimos. Empresas americanas como a Disney pagam generosos salários de 28 cêntimos por hora.

O que mais querem estes ingratos?

Haiti - Simanca Osmani, Cagle Cartoons, Brasil
Cartoon de Simanca Osmani, Cagle Cartoons, Brasil


Fonte: CommonDreams.org - Haitian Earthquake: Made in the USA

Artigo original publicado a 14 de janeiro de 2010

Este artigo é para português de

Sobre o autor

Alexandre Leite é membro de Tlaxcala, a rede internacional de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, ao tradutor e à fonte.

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AO SUL DA FRONTEIRA: 20/01/2010

 
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