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22/10/2020
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Por quem os sinos dobram


AUTOR:  Amy GOODMAN

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


Paralisia de Bell. Apareceu de repente, há um mês. Acabava de desembarcar de um avião em Nova York, e meu amigo se deu conta de que eu estava com o lábio caído. Sentia como se o tivesse anestesiado com novocaína. Fui correndo para a sala de emergências. Os médicos me receitaram um tratamento com esteróides e antivirais durante uma semana. No dia seguinte piorou. Tive que tomar uma decisão: apresentarei, na segunda-feira, “Democracy Now!”, nosso informativo diário? Podia falar perfeitamente bem, e já estou cansada de ver mulheres (e homens) na televisão que luzem como se acabassem de sair do set de “Dinastia”. Talvez, se os espectadores notarem que a pessoa na qual confiam para lhes informar segue aí, embora tenha a boca um pouco torcida, mudem a imagem que têm dos amigos e familiares — ou, de fato, desconhecidos — que enfrentam algum problema de saúde.

Wikipedia, a popular enciclopédia da rede que qualquer um pode editar, afirmava que eu havia sofrido um derrame cerebral. Assim que, na terça-feira, decidi dizer aos espectadores e ouvintes que estava afetada temporariamente pela paralisia de Bell, uma paralisação facial periférica, que não é dolorosa, e que os médicos me asseguraram que voltaria a ser eu mesma em umas poucas semanas. Até lá, isso me dificulta um pouco o sorriso. Mas o mesmo ocorre com o mundo.

A cada ano, a paralisia de Bell afeta 50.000 pessoas nos EUA. É uma inflamação do sétimo nervo craniano que conecta com o olho, o nariz e o ouvido. A inflamação provoca a paralisia temporal do nervo. Algumas pessoas ficam impedidas de cerrar o olho, assim que, à noite, devem fechá-lo com fita adesiva, e outras pessoas não conseguem falar. George Clooney passou por isso. Ralph Nader viu-se afetado justamente no transcurso de uma turnê para conferências. Encontrava-se em Boston, debatendo com alguém, quando seu olho começou a lacrimejar e o lábio começou a cair. Isso não o deteve. Seguiu com a turnê, e simplesmente começava cada conferência dizendo: “Ao menos não podem me acusar de falar com duplo sentido”.

Estive em Santa Fé, Novo México, entrevistando Tim Flannery, eleito como “Australiano do Ano 2007” por seu destacado trabalho como explorador, paleontólogo, zoólogo e cientista especializado em mudança climática. Antes que entrássemos no cenário, desculpei-me por meu sorriso torcido. Disse-me que conhecia a sensação, já que havia sofrido de herpes zóster, uma virose muito dolorosa que atinge um lado da face. Pouco a pouco começava a me sentir menos só.

No dia seguinte, transmitimos desde a Asssembléia do Estado de Novo México. O operador de câmera me disse que o embaixador Joe Wilson, marido de Valerie Plame, há pouco tinha estado ali. Havia participado, junto com sua esposa, de uma entrevista à distância com Larry King. O operador comentou com Wilson que eu estava sofrendo de uma paralisia periférica. Ele respondeu que, em uma ocasião, também havia sofrido do mesmo mal.

Encontrei-me com Wilson depois de nossa transmissão da manhã. Descreveu-me o que lhe havia acontecido. Foi há dez anos. Acabava de descer do Air Force One, na África, com o presidente Clinton. Refrescou o rosto com água, olhou-se no espelho e viu o sinal revelador da cara desabada, o olho que não piscava e o lábio caído; pensou que tinha sofrido um derrame cerebral.

Avisaram o Centro Médico Militar Walter Reed, e em alguns minutos diagnosticaram a Wilson a paralisia de Bell. Clinton fez com que sentasse e disse-lhe que havia conhecido várias pessoas que padeceram com a doença, e que simplesmente tinha que seguir adiante. Acabaria por desaparecer. Wilson voou para Luanda e pronunciou um discurso na pista do aeroporto. Mais tarde, nesse mesmo dia, passou por um estúdio de televisão, e mal conseguir reconhecer a si próprio, com a boca torcida. Pensou que se parecia com o autor Edward G. Robinson, como se fosse um duro gangster que falava com a boca ladeada.

Inclusive meu neurologista sofreu paralisia facial, e me disse que simplesmente devia seguir com meu trabalho, e que com a medicação o problema se resolveria. Somente para me garantir, visitei um acupunturista do Bairro Chinês de Nova York, que tinha seu consultório junto ao escritório de apostas das corridas de cavalos, ao ouvir que esse médico era uma aposta segura!

Alegra-me poder dizer que a paralisia está atenuando, e que me sinto afortunada. Recompensada pelo enorme apoio recebido e pelas centenas de mensagens eletrônicas enviadas por pessoas que não conheço. Uma professora de marketing de uma escola de negócios de Houston escreveu: “Ver como seguias adiante apesar da paralisia facial me ensinou algo sobre mim mesma. Na vida nos encontramos constantemente com pessoas que têm imperfeições físicas. Por que somos impedidos de ver gente com defeitos e imperfeições na televisão? Habitualmente, parece que os repórteres e apresentadores dos informativos de televisão, em especial as mulheres, acabam de ganhar um concurso de beleza ou um concurso de modelos, o que parece prejudicar a veracidade da mensagem que transmitem”.
 
Sinto-me feliz por ter um bom seguro médico, embora frustrada por viver em uma sociedade em que o acesso de outras pessoas aos serviços de saúde depende dos caprichos do destino. O mais duro dessa doença foi a dificuldade para sorrir. Compreendi, então, o belo presente que é um simples sorriso. Lembro do sorriso mais famoso do mundo, ou melhor, meio sorriso, o da Mona Lisa. Talvez, inclusive, ela tivesse Paralisia de Bell.


Fonte: Original inglês For whom the Bell’s palsy tolls, tradução para o espanhol por Ángel Domínguez

Artigo original publicado a 30 de Outoubro de 2007 

Sobre o autor
Tradução redigida em português do 

Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica e  membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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TEMPESTADE CEREBRAL : 10/11/2007

 
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