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14/12/2019
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Revolta em Dubaibilônia


AUTOR:  Fausto GIUDICE

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


Tebas, a das Sete Portas, quem a construiu?
Nos livros figuram os nomes dos reis.
Arrastaram os reis os grandes blocos de pedra?
E Babilônia, destruída tantas vezes,
quem voltou a construir outras tantas? Em que casas
da dourada Lima viviam os operários que a construíram?
Na noite em que foi terminada a Muralha chinesa,
para onde foram os pedreiros?
Bertolt Brecht, Perguntas de um operário diante de um livro


Dubai, nova Babilônia

A nova Babilônia do século XXI chama-se Dubai. Este emirado petrolífero do Golfo entrou em um frenesi faraônico, e está se transformando em um verdadeiro pesadelo climatizado. Burj Dubai, a torre que vai dominar a nova Babilônia, será a mais alta jamais construída. O número de seus andares será um segredo até o fim da obra. Mas a máquina infernal acaba de se estropiar: os escravos se rebelaram. Ou, dito em termos modernos, os operários entraram em greve.

Greve? É a única atividade exótica que não se admite nos Emirados Árabes Unidos. No ano passado, questionado pelo programa da France 2, “Envoyé spécial”[Enviado especial], sobre as condições de trabalho dos imigrantes nessas obras babilônicas, o responsável árabe preferiu passar a palavra a seu conselheiro francês, que gaguejou: “Ehh, trabalhar nos Emirados não é a Previdência Social”.

Em 2005, os 10 milhões de trabalhadores imigrantes nos países do Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo: Arábia Saudita, Sultanato de Oman, Kuwait, Bahrein, Qatar e os Emirados Árabes Unidos (Abu Zhabi, Ayman, Sharyah, Dubai, Fuyairah, Ras el Jaimah e Umm al Qaiwain) enviaram a seus países cerca 30 bilhões de dólares. Um dinheiro duramente ganho. Nas obras de Dubai, a temperatura chega a 45 ºC, à sombra. Não existem horários. A atividade se prolonga durante as 24 horas do dia. Para ir dos canteiros até suas moradias, que recebem o merecido nome de acampamentos, os operários devem esperar os ônibus por horas. Para eles, nem mesmo o pesadelo é climatizado.

Os patrões dos emirados petroleiros começaram uma substituição em massa da mão-de-obra a partir da primeira guerra do Golfo, trocando os trabalhadores egípcios, palestinos, jordanianos, iraquianos e iemenitas por operários da Ásia, principalmente de cinco países: Índia, Bangladesh, Paquistão, Sri Lanka e China. Os hindus são os mais numerosos. Entre os 1,5 milhões de trabalhadores indianos que estão nos Emirados, mais da metade trabalham em Dubai e 300.000 em Abu Zhabi. Provêm, em sua maioria, de três estados da União hindu: Rajastão, Punjab e Andra Pradesh.


A obra de Burj Dubai


A torre que sobe (Janeiro 2006) …


e sobe (Junho 2006) …


e sobe (Outubro 2007) … até onde?

São operários da primeira geração, antes camponeses e trabalhadores agrícolas. São recrutados por agências de “escravos” ou emigraram ilegalmente aos Emirados. Recebem salários que vão de 93 a 131 euros ao mês, por jornadas de 12 horas ou mais. Há dois ou três anos, esses operários se deram conta de que foram bem enganados: no final das contas, a melhor opção teria sido procurar trabalho em uma das zonas especiais que crescem como cogumelos na Índia, de Delhi (Guraong) a Hiderabad (batizada “Ciberabad”), onde ganhariam o mesmo ou mais, com a vantagem de permanecerem em seu próprio país.

No mês de junho passado, o governo de Dubai lançou uma campanha de regularização dos  trabalhadores sem visto de residência, permitindo-lhes escolher entre uma passagem de avião para voltar a seu país de origem ou uma autorização para permanecer. Os que preferiram ir embora foram 280.000. Diante da escassez da mão-de-obra, produziu-se um duplo fenômeno: os trabalhadores compreenderam que a conjuntura era favorável para reclamar aumentos salariais e melhores condições de trabalho e de vida, e os patrões começaram a recrutar trabalhadores no Tibet e Coréia do Norte!

Embora nos Emirados as greves sejam exóticas, nem por isso são raras: em Dubai, as últimas ocorreram em março e abril de 2006. Então, 2.500 operários, empregados pela empresa anglo-árabe Al Naboodah Laing O’Rourke nas obras de Burj Dubai, a famosa “torre mais alta do mundo”, interromperam o trabalho e se confrontaram com as forças repressivas (também compostas em parte por imigrantes, a maior parte iemenitas). Reclamavam coisas normais: um aumento de salário (pois o seu oscilava, por dia, entre 2,75 euros para um peão e 5,25 euros para um carpinteiro qualificado), assistência médica, um melhor tratamento por parte dos capatazes. Essa greve foi seguida, em abril, pela dos operários da marina de “New Dubai”, empregados pela Al Ahmadiyah Contracting Company. Houve choques violentos e, na continuação, as habituais expulsões dos “líderes violentos”.

Em um sábado, 27 de outubro deste ano, começou um novo ciclo de greves nas obras de Dubaibilônia. Os primeiros a entrar em greve foram os trabalhadores da zona industrial de Yebel Ali e do bairro residencial em construção de Al Qusais. Eles enfrentaram a polícia a pedradas e destruíram parte do material. Resumindo, um comportamento de “não civilizados”, como disse um alto funcionário dos Emirados. Foram detidos cerca de 4.500 operários. No início, o governo anunciou sua expulsão, mas, depois, certamente levando em conta as razões dos chefes das obras, enfim decidiu não expulsar mais que 159,90 deles, indianos. Os cerca de 4.300 restantes voltaram ao trabalho em 31 de outubro.

Os resultados mais visíveis dessa greve são pobres: na entrada do Acampamento de Sonapur, um edifício de concreto armado de três pisos onde os operários dormem, a empresa de construção colocou um comunicado anunciando que dois médicos começarão, em breve, a visitar os doentes. E o patrão se comprometeu, além disso, a pagar a instalação de ar condicionado no acampamento e os botijões de gás utilizados pelos trabalhadores para cozinhar seu rancho. Mas não parece que pensa em aumentar os salários.

A segunda greve começou nas obras da Arabtech Construction Company, na quinta-feira, 1° de novembro. Desta vez, os que interromperam o trabalho foram 40.000, dos quais cerca 10.000 eram originários de Andra Pradesh. Suas reivindicações: aumento dos salários, melhoria das condições de alojamento e de transporte e anulação das multas (descontadas dos pagamentos) impostas sob qualquer pretexto. As reações não tardaram.

O Ministério do Trabalho e a “célula de direitos humanos” do Ministério da Justiça criaram um comitê conjunto que visitou os acampamentos e debateu com os grevistas. Melhoramentos foram prometidos, em especial, incrível, a criação de um seguro saúde! Algo que faria caducar as palavras do conselheiro francês antes citado. Os diplomatas hindus também entraram no jogo, e a empresa construtora lhes jurou que ia “rever os salários” em dois meses. Os grevistas voltaram ao trabalho no sábado, 3 de novembro. E o general Zhahi Jalfan Tamim, comandante-em-chefe da polícia de Dubai, fez uma declaração realmente extraordinária: “Poderíamos abrir investigações contra as empresas construtoras que tratam os trabalhadores de maneira desumana”.

Com sua luta, os párias de Dubai trazem novos ares aos Emirados.


Fonte: Basta ! Journal de marche zapatiste

Artigo original publicado em 5 de Nouvembro de 2007 

Sobre o autor

Tradução redigida em português do 

Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica e membro de
Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

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: 11/11/2007

 
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