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22/10/2020
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O que Jesus compraria?


AUTOR:  Amy GOODMAN

Traduzido por  Omar L. de Barros Filho


"Sexta-feira Negra”, Black Friday, é o nome que os vendedores varejistas colocaram no dia seguinte ao Dia de Ação de Graças, em sua tentativa de fazer com que o Natal seja sinônimo de ir às compras. Na Sexta-feira Negra se espera que os estadounidenses corram em manada aos centros comerciais, ansiosos pelas ofertas, armados com seus cartões de crédito.

Os analistas empresariais enchem o espaço radiofônico com previsões sobre como se comportará o caprichoso comprador, e sobre em que medida o preço da gasolina e a crise das hipotecas de alto risco afetarão as compras nestas festas. À Sexta-feira Negra seguirá a “Cyber-Segunda-feira”, Cyber Monday, um nome cunhado pela indústria varejista para anunciar a todos as compras por internet. Escutando os noticiários de negócios, alguém poderia concluir que não só o futuro da economia dos EUA, mas o da própria humanidade, depende das massivas e frenéticas compras das festas natalinas.

O Reverendo Billy é um pregador de rua interpretado por Bill Talen, um ativista anti-consumismo de Nova York, que é o protagonista do novo documentário longa-metragem  que chega aos cinemas esta semana: “What Would Jesus Buy?” (O que compraria Jesus?). O filme foi produzido por Morgan Spurlock, que alcançou a fama com seu documentário “Super Size Me”, onde mostrava seu declínio físico e mental durante um mês em que comeu unicamente a comida de McDonald’s no café, no almoço e na janta.

No filme, Talen e seu surpreendente Coro de Góspel Stop Shopping (Chega de comprar) percorre o país em dois ônibus que funcionam com biodiesel, celebrando falsos concertos públicos de góspel, que denunciam o “Shopocalypse” (“Comprapocalipse”), nossa evidente cultura consumista impulsionada pelo crédito e as empresas, sua dependência da exploração do trabalho em outros países, e de trabalho mal remunerado nos Estados Unidos; enquanto isso, destaca a importância das economias locais, das cidades pequenas e comunidades, a força e o valor que pressupõe o ato de comprar artigos de comércio justo, e a importância de ser feliz com menos.

“Hoje estamos aqui, a 28 dias do Natal”, profere o Reverendo Billy no começo de sua turnê, dirigindo-se à sua congregação de Greenwich Village, e continua: “Atrás do desfile de outdoors publicitários, com supermodelos olhando-nos desde o alto, vestidas com sua langerie natalina, cartazes com imagens de café com leite e essência de gengibre, que fingem o espírito de Natal de Charles Dickens... vamos percorrer este país adicto às compras”. Depois acrescentaria: “Nos sentaremos e derrotaremos os bulbosos pés amarelos da logomarca comercial mais famosa do mundo, que decidiu roubar a imaginação de nossos meninos e meninas durante 80 anos, o demônio, Mickey Mouse”.



Em seu caminho de Nova York à Disneylândia, o reverendo e seu rebanho se detêm no centro comercial Mall of America, em Minnesota, na sede central de Wal-Mart em Bentonville, Arkansas, em numerosas cafeterias Starbucks e grandes magazines como Target e Staples, educando e convidando a participar, confrontando e confundindo, com seu criativo teatro de rua e ação direta. Em Traer, Iowa, conhecemos Michael Reuman, cuja loja de roupas permanece aberta há mais de 100 anos: “Wal-Mart está matando as pequenas cidades dos Estados Unidos. Temos dois filhos e não incentivei nenhum deles a que se dediquem ao comércio. Não existe futuro aqui”.



Esta semana, Charles Kernaghan, do Comitê Nacional do Trabalho (NLC, por suas iniciais em inglês), tornou público frente à Catedral de Saint Patrick, em Nova York, um surpreendente relatório sobre as condições de exploração trabalhista em que se fabricam crucifixos na China. Saint Patrick, a Trinity Church de Nova York e a Associação de Varejistas Cristãos vendem crucifixos cuja origem foi rastreada até a fábrica Junxingye, de Dongguan, China. Lá, meninas de 15 anos em diante trabalham sete dias por semana, 14 horas ao dia, e somente ganham nove centavos de dólar por hora, uma vez que seu alojamento e comida sejam deduzidos de seu pagamento. É preciso perguntar a sério, o que Jesus compraria?

A Sexta-feira Negra também é o “Buy Nothing Day” ou “Dia Sem Compras”, um dia de boicote global ao comércio e ao consumismo. Proposto por Kalle Lasn e seus colegas da revista de Vancouver "Adbusters", o “Dia Sem Compras” tenta situar em um contexto global o frenesí consumista alimentado pelos anúncios e apoiado pela mídia. Kalle afirma: “Conduzir automóveis híbridos (flex) e reduzir as emissões poluidoras da indústria é genial, mas é como colocar um simples Band-Aid na ferida se não atacamos o problema central: temos que consumir menos”.

O movimento do comércio justo está crescendo, centra-se em produtos seguros e orgânicos produzidos de forma local, por pessoas que recebem não só um salário mínimo legal, mas um salário digno. Estão se formando redes de negócios sustentáveis e organizações sem fins lucrativos que vinculam diretamente os produtores com os consumidores, eliminando as  grandes corporações e os intermediários e possibilitando, assim, que as pessoas que fabricam os artigos obtenham uma maior parte do preço final de venda. Da roupa até chocolate e flores, de alimentos ao combustível, está ficando cada vez mais fácil comprar de forma ética. Heifer International tem uma seleção de animais de granja que podem ser "apadrinhados", e que a organização enviará a uma família pobre necessitada de qualquer parte do mundo.

Nestas festas, invista seu tempo em estar com sua família e seus amigos; é algo mais valioso que o dinheiro. Compre no comércio local, ou busque uma loja ou sítio web de comércio justo. Antes de entrar nesse enorme shopping center, pergunte a você mesmo: “O que Jesus compraria?”


Fonte: http://www.truthdig.com/report/item/20071120_what_would_jesus_buy/

Artigo original publicado a  20/11/2007

Sobre a autora

Tradução redigida em português do 

Omar L. de Barros Filho é editor de ViaPolítica e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor, aos tradutores, aos revisores e à fonte.

URL deste artigo em Tlaxcala:
http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=4254&lg=po

 


NO VENTRE DA BALEIA: 03/12/2007

 
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